segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Bento Prado Júnior, 80 anos

Se estivesse entre nós, o filósofo brasileiro Bento Prado Júnior completaria 80 anos nesse 21 de agosto. Tive a honra e o prazer de poder absorver um mínimo da riqueza filosófica e humana de Bento, ainda que por pouco tempo, como aluno e como orientando. Bento era um mestre, de generosidade intelectual ímpar, e um filósofo no sentido estrito da palavra. Alguém cuja vida inteira foi devotada à reflexão. E, para ele, a reflexão tinha um sentido não apenas epistemológico, mas existencial. Logo, não se confundia com a tecnicidade acadêmica, ao “trash império do paper”, à especialização e seu consequente empobrecimento que marcam o trabalho filosófico e científico contemporâneo.

Nesse sentido, no vídeo que reproduz abaixo, uma de suas últimas apresentações públicas, Bento ilumina o papel da filosofia neste início de século, marcado pelo triunfo do capitalismo global – “dar luz à razão” em uma era regressiva em termos econômicos, políticos e culturais. Voltando-se contra aquilo que ele chama de “uma consciência alienada, que nega os conflitos que, no entanto, se aprofundam” – ou seja, o caráter nefastamente ideológico do assim chamado “fim da história” – Bento exprime aí aquele que, no fundo, é seu projeto de vida: fazer da filosofia uma forma de consciência atenta à vida real, isto é, a vida dos conflitos, das contradições, mas também da experiência estética, do gozo, do desejo, da liberdade...

Mas, essa filosofia atenta ao “concreto”, para usar um termo sartriano que Bento certamente aprovaria, infelizmente não é, via de regra, a filosofia profissional praticada na universidade. “Hoje há professores de filosofia, há técnicos em problemas filosóficos. Não há propriamente filósofos”, diz Bento, ao final do vídeo, já durante as respostas aos felizardos participantes dessa conferência. Isso porque, segundo o pensador, a tecnização do pensamento filosófico, fruto da cultura da era da globalização, sufoca o espaço desse tipo reflexão.

“A filosofia se aproxima mais de um bate papo do que do cálculo”. Bento lutou até o fim da vida por e para este ensinamento. E, em uma era em que cada vez mais a qualidade filosófica de um autor se mede em termos quantitativos, pelo número de publicações em seu Lattes, ouvir isso daquele que foi o maior dos filósofos brasileiros, soa, ao mesmo tempo, e de modo paradoxal, nostalgicamente anacrônico e docemente alentador.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Ou se destrói o nazismo ou ele nos destrói

Na linha do que expliquei no post anterior, esta atualização estava completamente fora do previsto. Mas, em algumas situações, o silêncio é indicativo de cumplicidade. Há momentos em que não se pode tergiversar.

A marcha nazista ocorrida no último sábado, na cidade de Charlottesville, no estado da Virgínia, nos EUA, é digna de toda a condenação. Não se trata de um ato de liberdade de expressão. Não há liberdade de expressão quando se exprime um pensamento de ódio que visa eliminar outras pessoas.

Isso, aliás, é o óbvio ululante. Ou deveria ser. Mas, num país como o Brasil, em que se discute se o nazismo era de esquerda ou de direita, às vezes é preciso realçar as obviedades de algumas situações. E, tão evidente quanto isso, é que não há diálogo possível com a extrema-direita. Não há diálogo possível quando um grupo de pessoas se vê no direito de atacar as outras por uma auto-declarada supremacia que, como qualquer um sabe, não encontra qualquer respaldo na realidade.

Sartre, filósofo que se notabilizou, dentre outras coisas, pela defesa da violência revolucionária (que nada tem a ver com exercícios gratuitos de violência dos quais nosso cotidiano está tristemente repleto), fazia questão de ressaltar a impossibilidade de circulação e troca das ideias racistas, devido à sua irracionalidade operante. Ou seja, não se trata de um problema de convencimento. Aquilo que é irracional está, por definição, apartado da possibilidade de diálogo, que pressupõe, sempre, um mínimo acordo racional.

Digo isso porque essa impossibilidade precisa ser recuperada neste momento em que não apenas nos EUA, mas no mundo todo – e o Brasil tem sido um locus privilegiado deste recrudescimento –, ideologias neo-nazistas ou neo-fascistas encaminham-se para retomar posições definitivas no cenário político global, apenas sete décadas após os horrores da Segunda Guerra.

Com efeito, recuperar aquela impossibilidade significa não sofismar. Significa dizer em alto e bom som do que se tratam aquelas ideologias. Significa entender que ou se destrói o ovo de serpente do nazismo ou ele choca e nos destrói. Porque, vale insistir, não se dialoga com esse tipo de “gente”. Apenas se combate com todas as armas, até a sua eliminação.

Esclarecimento sobre o blog

Quem acompanha o blog, percebeu que, nos últimos meses, a constância das atualizações foi bastante reduzida. Depois de sete anos ininterruptos, confesso padecer de certa fadiga em alimentar a página com conteúdo de alguma relevância (pretensão minha nem sempre satisfeita, eu sei, mas que segue sendo meu horizonte aqui). Ademais, algumas questões pessoais e compromissos profissionais acabaram fazendo com que meu tempo e disposição para o blog ficassem mais exíguos.

Isso não significa que o blog vai deixar de ser atualizado. Apenas que, no próximo período, como já tem ocorrido, aliás, as novidades devem ser menos frequentes, e desobedecer à constância que, de alguma forma, vinha tentando manter nos últimos anos. Acho que esta explicação era necessária a todos que têm acompanhado essa página. Isso posto, aliás, passo, na sequência, a uma triste atualização, mas que me parece indispensável.

domingo, 18 de junho de 2017

Paul McCartney - Lei it be

Hoje, 18 de junho de 2017, Sir James Paul McCartney completa 75 anos de vida. Já na ansiedade por poder ver o ex-beatle pela primeira vez em Salvador no próximo mês de outubro, o blog o homenageia com essa versão executada em 1985, no Live Aid, de uma das melhores músicas da história. Apenas voz, piano e a magia de Paul.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Hegemonia às avessas: o "anti-comunismo" e o dilema da esquerda

Em seus escritos de juventude, Marx definia a religião como “sumário das lutas teóricas da humanidade”, uma “enciclopédia popular” que forneceria um conjunto de respostas prontas e acessíveis sobre a realidade. Dito de outro modo, a religião, de modo dogmático e sem avançar nos meandros do real, serviria de justificativa e consolo diante da miséria do mundo. Contudo, Marx entendia que a crítica da religião seria estéril se limitada à denúncia do que ele entendia ser aquela mistificação. Antes, era preciso dirigir a crítica filosófica à conjuntura na qual a religião podia desempenhar aquele papel “enciclopédico”. Fiz esse preâmbulo porque, em certo sentido, a direita brasileira logrou êxito, nos últimos anos, em disseminar uma espécie de “saber” que em muito remete ao entendimento marxiano da religião, se desprovido do lado sacro desta última. Trata-se de uma espécie de cartilha francamente contrária a quaisquer valores de esquerda, que fornece um anti-marxismo e um anti-socialismo tosco, a ponto de identificar, sem cerimônia, o PT (e demais partidos de esquerda, supostamente “braços” do primeiro), os governos Lula e Dilma e comunismo em uma única equação, uma espécie de síntese do mal.

Desnecessário ser de esquerda para saber que essa associação é, sob qualquer ponto de vista, insustentável. Entretanto, justamente por se tratar de um dogmatismo, sua fraqueza termina por ser sua força. Porque não penetra na realidade, mas se limita a uma aparência obscura, termina por justificar, por meio de associações arbitrárias, mas facilmente assimiláveis – ou seja, absorvidas sem exigência de reflexão. Assim, a cartilha da direita pode trabalhar com certo imaginário, historicamente sedimentado – aquele que associa comunismo, ditadura e pobreza generalizada – e transpô-lo para a realidade brasileira, na qual seu veículo de concretização seria o PT e seus líderes, sem necessidade de justificar as conexões que promove.

Esse tipo de procedimento não é exatamente uma novidade. O que é novo é que esse “manual anti-esquerda” foi incorporado – na melhor das hipóteses, ressoou com força – pela mídia corporativa do país, como parte de um projeto de auto-conservação (financeira e política). Mais ainda, essa mídia foi essencial em sua disseminação, construindo, desse modo, uma espécie de hegemonia às avessas: a locução adverbial aqui serve para indicar que, se o conceito de hegemonia consagrado pela tradição marxista pelas mãos de Gramsci (a ideia de uma reforma intelectual e moral capaz de consolidar uma visão de mundo alternativa) visava a transformação social, essa hegemonia se dá em sentido oposto. Bem entendido, não se trata apenas de conservar o status quo, isto é, reagir a novas mudanças, mas retroceder em direção a um passado no qual “o fantasma do comunismo” não existiria, ou, caso ameaçasse aparecer, era imediatamente sufocado em seu nascedouro (como na ditadura militar).

Agora, se poderia questionar como foi possível, ainda durante os governos petistas, que essa disseminação lograsse êxito. Para além de erros dos próprios governos e do PT, estabeleceu-se uma fratura, agora talvez mais evidente, entre o que se poderia chamar de parcela organizada da esquerda (aí inclusa sua intelectualidade) e uma massa difusa (serial, diria Sartre) que, ao mesmo tempo em que conheceu ganhos materiais no início de século, não avançou correspondentemente no âmbito da organização política e de valores coletivistas. Assim, tornou-se presa fácil daquele discurso precário, capilarizado pela grande mídia (e também, o que seria objeto para outra reflexão, das novas igrejas pentecostais). O recente estudo da Fundação Perseu Abramo sobre os valores da periferia de SP é claro a esse respeito (leia aqui).

Diante desse impasse, seria preciso refazer essa mediação. O PT, que nasceu com esse propósito, não parece ter forças, em curto prazo, a retomar este posto. Outros partidos de esquerda jamais conseguiram se posicionar nesse papel mediador, quase sempre fechando-se sobre si mesmos. Talvez, a única figura capaz de reconectar esses extremos, ou fazê-los dialogar minimamente, seja o ex-presidente Lula. Se essa percepção é válida, ela concentra uma parte do dilema da esquerda: não ter alternativa, se não recorrer a uma velha figura para poder se reerguer, figura essa que, como não bastasse seu desgaste natural, há tempos tem sido alvo contumaz de desconstrução por aquela mídia corporativa disseminadora do anti-esquerdismo. Ou seja...

Aliás, diante dessa reflexão, me lembro de uma frase certa vez proferida, vejam só, por FHC: “se Lênin fosse vivo hoje, ao invés de um partido, teria uma emissora de TV”. Uma vez na vida, concordo com o ex-presidente tucano. E acrescento: talvez o maior erro dos governos petistas tenha sido justamente não enfrentar de fato a oligopólio midiático brasileiro. O resultado está aí. Mas, sem maiores lamúrias, é preciso enfrentá-lo. Um caminho é tomar a sério o ensinamento de Marx e, antes de limitar a crítica apenas à indigência daquele risível discurso, é compreender as condições que o permitem prosperar e atacá-las. Para tanto, restabelecer aquela mediação entre o conjunto da esquerda (para além das divergências) e a massa que hoje serve de apoio ao “anti-comunismo”, é o passo primordial nesse momento.

sábado, 20 de maio de 2017

Sobre os últimos acontecimentos

O abalo político causado pela revelação do teor das delações dos executivos da JBS, na última quarta-feira à noite, ainda está longe de terminar. De um lado, um sentimento generalizado de que o governo acabou. De outro, um presidente (sic) que insiste em permanecer no cargo. Longe de pretender tecer maiores análises acerca de algo que, para muitos, eu incluso, segue ainda com obscuridades, alguns pontos merecem ser levantados para reflexão:

1-) Tal como ocorreu mês passado, quando da divulgação da delação da Odebrecht, muita gente, aí inclusos jornalistas experientes, se demonstraram “surpresos” com o que se descobriu. Evidentemente, os números da propina assustam. Igualmente, a naturalidade com que são relatadas as atividades criminosas. Mas, o que não deveria causar espanto, era o fato de que há uma confusão entre público e privado intrínseca a uma sociedade de tipo capitalista e que, no Brasil em particular, se agrava pela própria história de formação de nossas elites econômicas. A permanecer a maior fonte geradora de corrupção no país – o financiamento privado de campanhas eleitorais – o que teremos, no próximo período, é apenas a troca dos atores corruptores.

2-) É igualmente inacreditável que alguém se espante com o banditismo de Aécio Neves. Tanto quanto o fato de ele ainda continuar solto.

3-) Sempre se soube que Gilmar Mendes era um militante do PSDB travestido de juiz do STF. Mas, o que se revelou nos áudios divulgados nos últimos dias é ainda mais grave: se trata de um verdadeiro líder de bancada, coordenador do partido. É absolutamente chocante que não haja, a começar pelos meios jurídicos, um movimento pedindo o impeachment imediato de Mendes do Supremo.

4-) Toda essa movimentação de dinheiro fraudulento, para lá e para cá – da Odebrecht, da JBS, e de outras empresas que continuam interferindo na vida pública, sem que ainda tenham sido descobertas, e assim permanecerão – não despertou a atenção de nenhum órgão fiscalizador das instituições financeiras do país? Se um cidadão comum gasta 100 reais a mais do que o normal, seu banco fica imediatamente alerta. Mas, nesse caso, nada? Nenhuma denúncia, pedido de investigação, tudo normal? Por que será, hein?

5-) Mudando o lado do espectro político: mais uma acusação de que Lula e Dilma teriam contas no exterior – contas abertas pelo próprio delator, movimentada por ele, mas que seriam dos ex-presidentes. Qual a dificuldade em rastrear as contas, ou pegá-los em flagrante, como foi feito tão facilmente com Temer e Aécio? Ou seja, produzir provas efetivas, para além de retórica e obliquidades?

6-) Enfim, cada vez mais, fica claro que nenhuma dessas investigações visa prioritariamente o bem público. Trata-se de uma guerra de interesses, que talvez tenha ido mais longe do que se esperava. Nesse sentido, está se desenhando uma guerra entre Globo x Folha que, se confirmada, esconde muito mais sujeira do que o que se revelou até aqui. A questão é saber: quais são as motivações, as frações de classe, que se escondem por trás dessa briga? A questão se impõe, inclusive porque, independentemente do sucessor de Temer (se pela via indireta, mais provável, e que ambos os grupos defendem), seu maior interesse – a saber, a condução da política econômica e a realização das reformas – será conservado. Por que, então, essa cizânia no interior da burguesia?

7-) Aliás, para encerrar: não é estranho que Henrique Meirelles, ex-CEO da JBS, tenha dito que permaneceria no cargo mesmo se Temer renunciasse? Como ele pode garantir, de antemão, sua presença em um governo que ainda nem existe?

terça-feira, 2 de maio de 2017

Belchior - Como nossos pais

Meu primeiro contato com a música de Belchior foi há quase 20 anos. Se a memória não me trai, através de um tio materno, que me introduziu ao cantor cearense ainda na pré-adolescência, através da simpaticíssima Medo de avião. Contudo, após certo interesse, acabei sendo levado pelo rock inicialmente de modo dogmático, a ponto de desprezar completamente aquilo que se convencionou chamar de MPB. Felizmente, essa fase durou pouco tempo, e já ao redor de meus 16 anos, me reconciliei com o estilo. 

E foi, justamente, através de Belchior que percebi que a pretensa oposição entre MPB e rock poderia ser superada. Com efeito, enxergava nele uma espécie de versão local de Bob Dylan. Mas, não só:  a partir dessa época, suas letras começaram a me tocar mais fundo. O cunho político-crítico, visceral e hiper-realista, mesclado com certa verve que hoje definiria como existencialista, faziam confluir interesses que, nos anos subsequentes, me encaminhariam para a vida acadêmica, para a filosofia, as ciências sociais, a esquerda política... Com o decorrer dos anos, em diversas ocasiões, Belchior acabou se tornando, para mim, uma espécie de alter-ego. Quando morei no exterior, por exemplo. Ou agora, em salvador, sempre me pego cantarolando Apenas um rapaz latino-americano. Tanto que, na epígrafe de algumas redes sociais – o que me rendeu até homenagem de alunos no semestre passado  utilizo os versos iniciais do refrão daquela canção como síntese poética de minha biografia e um ponto de apoio para momentos difíceis.

Por isso, a perda de Belchior foi um choque. E, mais ainda, me pegou desprevenido, justamente por ocorrer em um momento em que precisávamos tanto de sua arte, em uma tarefa que, segundo consta, ele estava disposto a enfrentar. Foi-se o homem, fica a obra. E que obra! Infelizmente, porém, não vejo como homenagear nosso Dylan nordestino sem realçar a atualidade de uma de suas principais composições, Como nossos pais. A música que, quando descobri Belchior, fazia referência a um tempo que parecia, cada vez mais, um quadro desbotado na parede da memória nacional, hoje se revela de uma atualidade assustadora. Mas, como o novo sempre vem, que possamos em breve superar esse triste momento, e não precisemos viver como nossos pais...


segunda-feira, 17 de abril de 2017

A "descoberta" da corrupção

Na semana passada, a partir da divulgação das delações da Odebrecht, o Brasil parece ter se dado conta de uma verdade tão velha quanto a formação social em que vivemos: o capital corrompe a democracia, porque a força do interesse privado das grandes corporações tende sempre a prevalecer sobre o bem público. Não se trata de exclusividade nossa. Muito pelo contrário. Há, a meu ver, e já pude esboçar algumas linhas nesse sentido, uma incompatibilidade estrutural entre capitalismo e democracia no sentido forte do termo, isto é, como regime social baseado na liberdade e na autonomia do conjunto dos cidadãos. Mas, é evidente que, em um país com as nossas condições, aquele agenciamento torna-se mais dramático.

Não sei até que ponto as delações de Marcelo Odebrecht e demais comparsas (estamos, afinal, falando de uma organização criminosa) são verdadeiras ou representam crimes. Vide, por exemplo, o caso do ex-presidente Lula. Se, por um lado, a intimidade de um líder popular com os principais executivos da empreiteira pode (diria: deve) ser criticada, de outro, forçoso é notar que essa crítica é fundamentalmente moral, e não criminal. Sobretudo porque, na sua quase integralidade, elas dizem respeito a relações de agentes privados, porquanto denunciam “favores” a partir de 2011, momento no qual Lula já não exercia qualquer cargo público. Vide o caso das palestras do ex-presidente, que também foram contratadas por inúmeras outras empresas. Ou mesmo o tal “fundo” com sobras de campanha de 2010, que Lula alega nunca ter usado e que, segundo as próprias delações, foi criado unilateralmente pela empreiteira.

Do mesmo modo, a divulgação, da forma como tem sido feita, mistura propositalmente alhos com bugalhos: doações de campanha com recebimento de dinheiro em troca de contrapartidas; relações moralmente questionáveis travadas a partir de expectativas da Odebrecht com a materialização de atividades ilícitas.

De qualquer forma, o ponto que me chamou mais a atenção nas delações foi a nítida sinalização para algo que deveria ser de domínio público: a relação promíscua entre capital privado e poder público, no Brasil, tem seu princípio ativo no financiamento de campanhas.

Quem acompanha o blog sabe que há anos se bate nessa tecla. São diversos posts, inclusive alguns que remetem a artigos que tive a oportunidade de escrever para a revista Teoria e debate, assinalando essa posição. E não se trata de uma posição particular. Vale lembrar que os partidos de esquerda (PT, PCdoB e PSOL) sempre defenderam o financiamento público de campanhas, justamente porque ele, ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, seria bem menos custoso ao país – como, imagino eu, ficou claro agora.

Curiosamente, os setores que hoje demonstram “espanto” e “indignação” com a corrupção, são aqueles que historicamente se opuseram à mudança de modelo. Ou seja, são aqueles que mais trabalharam para que aquela promiscuidade perdurasse. Nisso, é bom frisar, incluem-se a mídia e o judiciário. Nesse sentido, o depoimento de Emílio Odebrecht é claro: todos os setores sabiam do modus operandi da política brasileira. E, mais ainda: que esse modus operandi vem de décadas. Por isso, a “surpresa” que muitos jornalistas tentam demonstrar não passa de desfaçatez. São os mesmos que passaram mais de uma década vendendo a tese de que a corrupção havia ido “institucionalizada” pelo PT. Nesse ponto, ao menos, a Lava Jato teve serventia.

Ademais, aquela relação promíscua ocorre, dentre outros motivos, porque a burguesia brasileira sempre foi parasitária. Talvez mais do que qualquer outra no mundo. O próprio Emílio Odebrecht, com efeito, confessa que, no Brasil, a burguesia jamais se dispôs a enfrentar o livre mercado. Não há riqueza nesse pais que não passe por conluio com o poder público.

Mas, tristemente, a menos que haja uma improvável revolta social generalizada (diria, quase uma revolução), são os representantes diretos daqueles setores que cinicamente tentam demonstrar indignação que, passado o turbilhão, deverão se reacomodar. Talvez, com uma ou outra baixa no caminho, e com o interregno de algum governo aventureiro que, certamente, não tocará nos privilégios criados pela relação espúria que agora vem definitivamente à tona. Com a esquerda, porém, o processo deverá ser bem mais cruel. Sua eventual implosão demorará décadas para ser revertida. Por mais paradoxal que pareça, uma vez que, não apenas a esquerda sempre denunciou aquilo que agora de “descobre”, como porque toda essa operação se tornou possível graças ao fortalecimento da Polícia Federal e de mecanismos de controle que, estes sim, foram devidamente revigorados a partir de 2003.

sexta-feira, 31 de março de 2017

O “bom mocismo” ou o triunfo do cinismo

Em entrevista publicada ontem pela Folha de SP, o apresentador Luciano Huck diz que é hora de sua geração “ocupar o poder”. Filiado ao PSDB, Huck afirma ainda que “não importa” saber se houve golpe ou não, e acrescenta que enxerga em FHC alguém com uma “mente moderna”.

Ao mesmo tempo, com apenas três meses de mandato, o prefeito de SP, o também tucano João Dória, já é inacreditavelmente apresentado/vendido/empurrado como um “modelo de gestão”, cacifando-se para voos mais altos já em 2018. Se não à presidência (Huck parece um nome mais “nacional” e mais “popular”), ao governo de SP - onde seu partido, como se sabe, é capaz de eleger qualquer pato manco como governador. Do ponto de vista do marketing eleitoral, nomes como Huck e Doria poderiam, em um trabalho conjunto, encarnar a “rejeição à velha política” (como o próprio Doria já fez na última eleição para prefeito), sem a fragilidade do ar “sonhático” de Marina e seus seguidores, e sem o caráter, digamos, tosco, de um Bolsonaro.

Numa palavra, seria uma espécie de chapa de “bons moços”: aqueles que, em outros tempos (talvez, nem tão outros), eram definidos como “bons partidos”. Agora, porém, suas qualidades não se mostrariam mais em sua versão matrimonial, mas política. Modelos de self-made men, outsiders que abrem mão do sucesso em suas carreiras para servir a uma “causa maior”. Tal qual Donald Trump nos EUA.

Mas, como ninguém hoje quer ser associado ao presidente norte-americano, pode-se dizer que este seriam os “Trumps do bem”. Nessa linha, poderiam entrar ainda o ex-técnico da seleção brasileira de vôlei Bernardinho, no RJ (também filiado ao PSDB), e, quem sabe, com algumas ressalvas (nada que uma boa propaganda não resolva, e ele é inegavelmente competente nisso) o promoter de festas/bon vivant ACM Neto, na Bahia. Por fim, não se poderia deixar de mencionar aquele que talvez seja o maior protótipo brasileiro deste novo perfil: Roberto Justus, do PMDB, que também já se dispôs publicamente a se apresentar para o “sacrifício” de “salvar o país”.

A eventual concretização deste cenário representaria o triunfo do bom mocismo em sua faceta mais cínica; a derrota da política, no sentido forte do termo, em favor do puro marketing. A princípio, não acho que seja o mais provável. Entretanto, na era da pós-verdade, do instanteneísmo da imagem, todos os nomes acima têm credenciais suficientes para se impor no “mercado de votos” (que é como, em nossa era, e não por acaso, se entende o processo eleitoral).

Por isso, embora, repito, não ache o mais plausível, tampouco imagino que devesse causar surpresa em alguém se, a partir de 2018, a política brasileira deixasse de ser operada nos corredores de Brasília para ser decidida, entre um champagne e outro, em resorts de luxo espalhados por nossa costa. Tudo ao vivo, na TV, quem sabe, com direito a “participação” do telespectador.

sábado, 25 de março de 2017

Elton John - Tiny Dancer

Sir Elton John completa hoje 70 anos como um dos maiores nomes da música pop. Quem nunca se deliciou, curtiu, se apaixonou ou namorou ao som de uma de suas canções?

Essa versão de 1971 de um de seus clássicos, Tiny dancer, chama a atenção pela simplicidade do arranjo: apenas Elton, seu piano, e sua magia.

Happy birthday, Sir!!!


quarta-feira, 15 de março de 2017

Uma lição de Espinosa sobre a democracia

No longínquo ano de 1670, o holandês Baruch de Espinosa, primeiro grande filósofo moderno a defender abertamente a democracia como melhor forma de governo, dizia o seguinte em sua obra derradeira, o Tratado político: “Os homens estão necessariamente submetidos a emoções. (...). A Razão pode bem conter e governar as emoções, mas (...) o caminho ensinado pela Razão é muito difícil; aqueles que, por isso, se persuadem ser possível levar a multidão, ou os homens ocupados com os negócios públicos, a viver segundo os preceitos da Razão, sonham com a idade de ouro dos poetas, isto é, comprazem-se na ficção. Um Estado cuja salvação depende da lealdade de algumas pessoas e cujos negócios, para serem bem dirigidos, exigem que aqueles que o conduzem queiram agir lealmente, não terá qualquer estabilidade. Para poder subsistir será necessário ordenar as coisas de tal modo que os que administram o Estado, quer sejam guiados pela Razão ou movidos por uma paixão, não possam ser levados a agir de forma desleal ou contrária ao interesse geral. E pouco importa à segurança do Estado que motivo interior têm os homens para bem administrar os negócios, se de fato administrarem bem”.

Há mais de uma década, mais precisamente desde 2005, tenta-se vender a tese (com sucesso, diga-se) de que, no Brasil, o mal, a corrupção, o “agir de forma desleal ou contrária ao interesse geral”, se concentraria principalmente em meia dúzia de líderes de um determinado partido político, cuja engenhosidade transgressora teria, inclusive, corrompido outros partidos e cidadãos, irresistivelmente arrastados nas engrenagens do “projeto criminoso de poder” daquele bando delinquente. Ou seja, quase três séculos e meio depois das palavras de Espinosa, ainda há quem se deixe levar – ou seja quase que forçado a acreditar – por aquela ficção, que ao confundir as esferas pública e privada, rezava ser possível garantir a boa administração do Estado apenas pela boa vontade de seres que, surdos às suas paixões, seriam qualquer coisa, menos humanos. Anjos, talvez, como diria Kant, mais tarde. E, claro, se um dos lados é o mal, aqueles que o denunciam seriam a encarnação do próprio bem. Os anjos da boa vontade. Ou, numa linguagem mais afeita aos nossos tempos, os “gestores”.

Digo tudo isso porque, se há algo de positivo no circo armado pela Lava Jato, mais particularmente nas tais listas de denunciados do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, independentemente do desfecho que terão (e não há porque não crer que os desfechos não serão equânimes, mas sopesados pela coloração partidária do acusado), é a de mais uma vez ilustrar que vícios e virtudes não são monopólio de pessoas ou grupos específicos. Também é a de tornar ainda mais patente que, não é o auto-declarado caráter virtuoso de alguns iluminados – “mitos” ou empresários “a-políticos” – mas, apenas uma profunda reforma de todo o sistema político, a partir da qual o Estado seja ordenado “de tal modo que os que o administram não possam ser levados a agir de forma desleal ou contrária ao interesse geral” independentemente de suas motivações pessoais, como hoje ocorre, que pode garantir a efetivação da democracia, isto é, o triunfo da vontade pública sobre o poder dos interesses privados. E, por fim, mas não menos importante: que todo o processo que culminou na deposição de Dilma Rousseff, e hoje se intensifica com o ataque frontal a direitos adquiridos, supostamente insustentáveis diante do também suposto desmantelamento do orçamento federal por conta da corrupção, não passou de uma gigantesca farsa.

sexta-feira, 3 de março de 2017

A perda da alteridade e as redes sociais

Um dos pontos altos da filosofia de Hegel é a forma pela qual ele estabelece um vínculo ontológico entre a ipseidade – o ser-si-mesmo – e a alteridade – o outro-que-não-eu. Particularmente em sua Fenomenologia do Espírito, o filósofo sublinha a sina dolorosa da consciência que, para superar a pobreza de seu estado natural em direção ao saber, lida a todo instante com sua própria negação. Segundo Hegel, todo progresso é dialético porque inevitavelmente marcado com o sinal do negativo: não há conhecimento possível sem que experimentemos o outro, o diferente.

Assim, o trajeto da consciência hegeliana se caracteriza por um permanente arrancar-se de si mesmo, que só é possível pela intervenção da alteridade. Sem contato com o outro, ou, mais precisamente, sem a experiência do outro (no duplo sentido do genitivo, isto é, como “experienciar” o outro e sem aquilo que o outro traz a mim), nada haveria, senão uma consciência ensimesmada e, por definição, estanque.

O advento da globalização neoliberal insinuava, dentre outras coisas (ao menos, de acordo com seus ideólogos), a construção de um “mundo sem fronteiras”, “multicultural” e no qual, portanto, a alteridade seria vivenciada em seu mais profundo sentido. Passadas algumas décadas desse fenômeno, porém, o que se vê é exatamente o oposto: a solidificação de grupos cada vez mais autocentrados, sem qualquer abertura a uma experiência real – naqueles termos consagrados por Hegel – do outro. Esse fenômeno, cujas consequências políticas são visíveis no recrudescimento de discursos ultranacionalistas, xenófobos etc., se deixa transparecer cotidianamente nas “redes sociais”.

Quando surgiram, novamente, havia a expectativa de que tais ferramentas pudessem se materializar como uma via de acesso ao outro, ao diferente, à opinião contrária, aos valores e formas de vida com os quais não estamos acostumados. Em pouco tempo, porém, o que se nota é que as redes criaram bolhas, dentro das quais nos movemos em segurança e que, por sua configuração, bloqueiam qualquer traço de alteridade. Com efeito, o aparecimento da divergência, inevitável no fluxo contínuo de informações digitais, não é motivo de crescimento ou progresso, de diálogo, de abertura ao novo. Antes, é principalmente motivo de reafirmação de uma identidade fechada. Não por acaso, a forma mais comum de tratar o outro, neste cenário, é pela via de sua exclusão, real ou simbólica. Isto é, pelo desejo de seu extermínio físico ou enquanto voz ativa. É o triunfo do ódio, ou seja, aquele desejo de eliminar completamente o outro – isto é, todos os outros, como diria Sartre.

Feito esse brevíssimo diagnóstico, resta estabelecer suas causas. Nos limites desse espaço, contudo, apenas uma indicação de um dos possíveis caminhos a seguir seria exequível. Aliás, ela já foi avançada em um texto que tive a oportunidade de publicar na “Coluna ANPOF” no ano passado, e reproduzido aqui no blog (leia aqui), e de cujo aprofundamento pretendo me ocupar no próximo período.

Trata-se do processo de ultrassubjetivação, delineado, dentre outros, por Pierre Dardot e Christian Laval, além de Franck Fischbach, que acompanha a afirmação da racionalidade neoliberal, deslocando a lógica da competição empresarial também para o âmbito da vida privada e da subjetivação. De um lado, esse processo visa reforçar o desligamento do indivíduo de qualquer vínculo efetivo com o mundo, em nome de sua constante mobilidade, mas, contraditoriamente afrouxando a construção de sua própria identidade. De outro, face à impossibilidade de se sustentar esse desligamento radical – na medida em que impede qualquer processo de subjetivação efetiva –, se fortalece aquilo que Immanuel Wallerstein denominou de “grupismo”. Ou seja, a resposta para o avanço de um individualismo radical – fruto da exacerbação daquela racionalidade competitiva, típica do meio empresarial – é a busca por um ponto de apoio que freie a instabilidade promovida pela ultrassubjetivação: este apoio é encontrado na formação de grupos que, por definição, constroem sua identidade a partir de uma resoluta oposição com seu outro.

Nesse sentido, as redes sociais favorecem o estabelecimento desse nexo interindividual, que surge como um amparo diante da extrema fluidez do mundo contemporâneo e sua lógica competitiva. Ao mesmo tempo, se essa hipótese é válida, a interiorização dessa racionalidade hiper-individualista, que inclusive precisa rejeitar qualquer traço de dor e sofrimento em nome da celebração da felicidade permanente (o “sucesso”), torna o “grupismo” um forte antídoto ao medo que inevitavelmente acompanha a experiência da alteridade. Assim, as redes apenas dão vazão a um temor cuja origem, antes de ser exclusivamente psicológica, é causada pela própria dinâmica social que põe os indivíduos em competição permanente contra todos (na impossibilidade de universalização do sucesso, o outro tende sempre a aparecer como uma ameaça potencial) e contra si (a ideologia do crescimento pessoal – este entendido como melhor adaptação às exigências do mercado – e consequente sucesso/felicidade).

O brilhante Umberto Eco, pouco antes de morrer, disse que as redes sociais deram voz a milhões de idiotas. Corroborando a tese do escritor italiano, pode-se acrescentar que o idiota da rede social o é, primeiramente, no sentido original do vocábulo: a pessoa fechada sobre si mesma, típica de nossa era. Enfim, o bloqueio à experiência da alteridade aparece como sintoma do desconforto causado pela exigência impraticável de uma competição radical, no qual os indivíduos se relacionam entre si enquanto inimigos. Seu resultado mais devastador é um esvanecimento da ipseidade em uma perda completa de qualquer sentido de empatia, solidariedade e humanidade. Um Eu que nunca é Nós, parafraseando Hegel, porque sequer chega a ser Eu.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Nota sobre o papel ativo do sujeito na filosofia do Idealismo Alemão

Costuma-se classificar como “Idealismo alemão” o período da filosofia germânica que se estende das últimas décadas do século XVIII até meados do século XIX, tendo como principais expoentes nomes como Kant, Fichte, Schelling e Hegel. Em que pese a heterogeneidade entre esses filósofos, há uma série de motivações e questões comuns – da epistemologia à ontologia, passando pela estética, pela ética, a política e o direito, dentre outras – que permitem agrupá-los sob uma mesma rubrica. Uma delas é apontar para o vínculo indissolúvel que liga consciência e ser, o que permite enfatizar o papel ativo do sujeito na construção do mundo. É o que Marx, por exemplo, ao mesmo tempo herdeiro e crítico dessa tradição, apontará na sua primeira tese contra Feuerbach: a apreensão do real não é passiva, mas requer participação efetiva do ser humano.

Nesse sentido, o idealismo insurge-se contra a perspectiva empirista de que a mente humana é uma folha em branco na qual são gravadas impressões oriundas dos objetos sensíveis apreendidos perceptivamente. Do mesmo modo, ressalva feita em alguma medida a Hegel, nega que a consciência possa refletir o real de modo transparente, como se fosse um espelho.

De fato, na visão idealista, a consciência é Tätigkeit, ação, e Vermittlung, mediação. Ela constitui ativamente o objeto porque medeia a realidade – que, nesse caso, é sempre real-para-uma-consciência. É o mote da “revolução copernicana” anunciada por Kant na Crítica da razão pura: “Até hoje admitia-se que o nosso conhecimento se devia regular pelos objetos; porém, todas as tentativas para descobrir a priori, mediante conceitos, algo que ampliasse o nosso conhecimento, malogravam-se com este pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento, o que assim já concorda melhor com o que desejamos, a saber, a possibilidade de um conhecimento a priori desses objetos, que estabeleça algo sobre eles antes de nos serem dados”.

Em Kant, este papel ativo remete à ideia das intuições puras da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias puras do entendimento (os conceitos), através das quais sintetizamos aquilo que nos é dado pelos sentidos. Isto é, ordenamos a experiência (Erfahrung), que nada mais é do que essa relação entre consciência e mundo, fora da qual nada podemos conhecer.

No filósofo de Königsberg, porém, o sujeito responsável por essa organização sintética da experiência não é um sujeito concreto, empírico, mas um sujeito transcendental. Trata-se, com efeito, de uma consciência meramente lógica, que estrutura os objetos dados através de formas independentes da própria experiência empírica. Isto é, pelas estruturas a priori presentes no próprio sujeito do conhecimento. Conhecer, assim, é operar a mediação entre as estruturas da razão – é dela, afinal, que se trata – e a multiplicidade de coisas fornecidas pelos sentidos. A consciência ou sujeito transcendental constitui seu objeto que, por sua vez, só existe para ela.

No desenrolar histórico do Idealismo Alemão, será buscada uma nova fonte unificadora da experiência – ou, no vocabulário idealista, um Absoluto –, que supere o caráter epistemológico do sujeito kantiano: em Fichte, será o Eu puro, eu concreto, sujeito cuja essência é um puro ato de pôr (setzen) o mundo como sua negação e possibilidade de superação. Em Schelling, e depois, especialmente em Hegel, este sujeito absoluto superará o plano exclusivo do indivíduo fichteano e remeterá ao Espírito Universal como fonte de sentido do real, do qual nossa consciência seria um veículo privilegiado.

O que é mais relevante, porém, para além de seus desdobramentos e divergências internas, é que, com o Idealismo Alemão, desaparece a ideia de que os indivíduos são meros espectadores do mundo. Portanto, de que o real, sobretudo o “mundo cultural”, seria um dado, uma fatalidade. Pelo contrário, no limite, o que chamamos de real nada mais é do que a concretização da obra humana.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Tom Jobim & Chico Buarque - Anos dourados

25 de janeiro de 2017: se vivo ainda fosse, o Maestro Soberano da música brasileira, Antônio Carlos Jobim, estaria completando 90 anos. Para marcar a data, compartilho aquela que considero ser uma das melodias mais belas da MPB (se não a mas), criada pelo gênio de Tom e brilhantemente letrada por Chico Buarque: Anos dourados.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Ricardo Darín - 60 anos

O ano no blog se inicia com uma homenagem ao grande ator argentino Ricardo Darín, que neste 16 de janeiro completa 60 anos. Mas, ao contrário do usual, não vou aqui publicar algum trabalho dele. Nesse tributo, deixo vocês com dois trechos de entrevistas de Darín, nas quais ele demonstra não apenas ser talentoso em sua profissão, mas também ser um cidadão acima da média. No primeiro, fala de sua recusa a trabalhar em Hollywood, deixando o entrevistador desconcertado, No segundo, sobre a utopia.

No dia em que é publicada a notícia de que oito pessoas detêm riqueza maior do que a metade mais pobre do planeta (leia aqui), as palavras de Darín reforçam a necessidade de se pensar em um modo de vida diferente do que aquele em que vivemos.