segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Boas festas!!!

Apesar da correria deste final de ano, passo para desejar a todos os amigos e amigas, leitores e leitoras,

















O blog volta em janeiro, com novidades.

Até lá!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Mais um troféu na galeria


Não escrevi antes sobre o título do São Paulo na sul-americana, primeiro por pura falta de tempo e, depois, para deixar a poeira dos lamentáveis incidentes da última quarta-feira baixar um pouco. Só para não deixar passar, em minha opinião, o que aconteceu foi uma sucessão de equívocos de várias das partes envolvidas (dirigentes de ambos os clubes, jogadores argentinos querendo exclusivamente arrumar confusão, juiz fraco, Conmebol), que catalizados pela mediocridade histórica do Tigre, resultaram no que vimos.

Mas, o mais importante, foi que depois de alguns anos de limbo, o São Paulo voltou a conquistar um título. Ainda que não seja o mais vistoso em sua vasta galeria, terminar o ano com um troféu internacional inédito, ainda mais num ano em que todos os rivais paulistas também foram campeões, é algo para se comemorar (e tendo em vista que perdemos meio ano com Leão de técnico). Mais ainda, com ele, as perspectivas que se abrem para o próximo ano, no qual o clube volta, com moral, a disputar a Libertadores em busca de sua quarta conquista. Pretendo, em algumas semanas, fazer um balanço de 2012 do São Paulo, já projetando 2013. Quem sabe, com a confirmação de algum reforço de peso, especialmente para a zaga, para a lateral e para o lugar de Lucas (setores, a meu ver, mais carentes no momento). Aliás, antes de terminar, faço uma menção honrosa a esse jogador, que honrou demais a camisa tricolor, e mais do que ninguém no elenco, merecia esse título. A você, Lucas. Merci beaucoup et à bientôt!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Casablanca

Na última semana, o filme Casablanca completou 70 anos. Embora filmes embalados por romances não costumem ser meus preferidos, confesso que este é uma exceção. Não sei se pelo enredo, cujo pano de fundo é o drama da II Guerra, se pelas atuações magníficas de Humphrey Bogart e da belíssima Ingrid Bergman, se pela música envolvente, As time goes by. Talvez (e muito provavelmente), por todos estes fatores. Casablanca é definitivamente um clássico. Atemporal. Que merece ser visto e revisto.

***

Casablanca

Ano: 1942
Direção: Michael Curtiz
Gênero: Romance / drama
Origem: Estados Unidos
Duração: 102 min.
Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid

Sinopse: Segunda Guerra Mundial. Muitos fugitivos tentam escapar dos nazistas por uma rota que passava pela cidade de Casablanca, no Marrocos. O exilado americano Rick Blaine (Humphrey Bogart) encontrou refúgio na cidade, e dirige uma das principais casas noturnas da região. Clandestinamente, tentando despistar o Capitão Renault (Claude Rains), ele ajuda alguns refugiados a fugir para os Estados Unidos. Quando um casal pede sua ajuda para deixar o país, Blaine reencontra uma grande paixão do passado, a bela Ilsa (Ingrid Bergman). O renascimento deste amor leva ambos a lutar para fugir juntos.






quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Um passo atrás


Felipão foi apresentado, agora pela manhã, como novo treinador da seleção. Segundo pode-se interpretar das palavras do presidente da CBF, José Maria Marin – que fez questão de (tentar) explicar porque não poderia trazer Tite, Muricy, Luxemburgo ou Abel –, Felipão era a opção que restava. E era, sem dúvidas, a pior opção.

O ex-treinador do Palmeiras conseguiu a proeza de ser a primeira pessoa na história a “cair pra cima”. Teve papel decisivo no rebaixamento do clube palestrino, mas, como prêmio, ganhou o comando da seleção. Contudo, não é nem esta meritocracia às avessas o ponto mais grave. A queda do Palmeiras poderia ser apenas um ponto fora da curva. Mas não é. Como disse em post ontem, tecnicamente falando, Mano deveria ter saído da seleção já há algum tempo. Porém, a forma pela qual foi demitido e, em especial, o motivo que levou à sua queda, são nefastos. Ainda assim, tal cafagestagem poderia ser minimamente redimida com a escolha de alguém em melhores condições do que Mano para dirigir a seleção. E este, definitivamente, não é o caso atual de Felipão.

Não nego suas virtudes como técnico (sobretudo em competições “mata-mata”), seu currículo, não nego o fato de que Scolari tenha sido importante na conquista do Mundial de 2002. O que questiono é o fato de o treinador ter parado no tempo. Não ter acompanhado a evolução do futebol. Ainda ser adepto do “pega, pega, pega” como tática de marcação (imaginem Scolari gritando “pega, pega, pega” para parar o Messi, por exemplo?).Ter acumulado fracassos em seus últimos trabalhos importantes. O Palmeiras, sob seu comando, sempre foi um time medíocre, técnica e taticamente falando. Exclusivamente dependente da bola parada de Marcos Assunção. Felipão, em nenhum momento, conseguiu dar cara de time a um elenco que ele mesmo ajudou a montar (os palmeirenses sabem do que estou falando), mesmo no título da Copa do Brasil, este sim, um ponto fora da curva do atual Felipão. E é justamente este – e não o de 2002 –, o Luiz Felipe Scolari que assume o comando da seleção.

O novo treinador, vale lembrar, será acompanhado por Carlos Alberto Parreira. Embora tenha sido um técnico medíocre (mesmo com o título mundial de 1994), é fato que Parreira é um estudioso do futebol – a entrevista coletiva de ambos acabou de demonstrar como Parreira parece mais antenado com as necessidades de evolução de nosso futebol do que o próprio Felipão. Ainda assim, não acho que Parreira poderá ajudar muito. É, no final das contas, mais do mesmo. E, como Scolari, colecionou fracassos em suas últimas empreitadas futebolísitcas, com destaque à forma ridícula como conduziu o Brasil na Copa de 2006.

O que nosso futebol verdadeiramente precisa é de fôlego novo. Ser arejado por novas ideias, novas práticas, em todos os níveis. Neste quesito, portanto, demos um enorme passo atrás. Espero queimar a língua. Mas, por ora, nada resta além de aguardar e torcer.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Mano, Marín, seleção


Esperei alguns dias para escrever sobre a demissão de Mano Menezes, porque queria ver os primeiros desdobramentos dessa ação desastrada do presidente da CBF. Mais precisamente, se haveria uma decisão imediata sobre o novo ocupante da vaga. Como, até aqui, só há especulações (ainda que, ao que tudo indica, o nome de Felipão seja disparado o mais cotado), decidi deixar minha opinião sobre este episódio.

Acho o Mano um técnico fraco para a seleção. Com pouco currículo. E de caráter, digamos, duvidoso (eis o que escrevi quando ele assumiu). Mas a forma como foi demitido foi absolutamente injusta. Inoportuna, para dizer o mínimo. E os reais motivos dessa demissão são ainda mais deploráveis.

Mano poderia ter saído depois do fiasco brasileiro na Copa América. Ou, há alguns meses, após as Olimpíadas. Não agora. Temos três ou quatro jogos até a Copa das Confederações. Um ano e meio para a Copa. E, mesmo que com atraso, o ex-treinador da seleção começava a esboçar um time que, a meu ver, deverá ser a base do time de 2014 – não importa qual técnico esteja no nosso banco. Quer dizer, tecnicamente falando, no momento em que ele começou a dar sinais de melhoras, caiu. Mas, muito pior do que esta falta de timing: ele justamente não caiu pela questão técnica – que, insisto, justificaria sua demissão desde muito tempo. Caiu por questões políticas. Por vaidade. Porque o novo presidente da CBF, José Maria Marín, conseguiu, neste ponto, ser pior que seu sucessor (pasmem!), e viu na escolha de um novo treinador a forma de conseguir imprimir suas digitais na eventual taça de campeão do mundo. Que, naturalmente, ninguém sabe se virá. Se depender de sua competência, não. Mesmo porque, parece-me inacreditável que o técnico que recentemente rebaixou uma das maiores equipes de nosso futebol para a série B, seja o mais cotado para ganhar o prêmio de treinar a seleção. Felipão, hoje, é a marca do atraso no futebol. Não se atualizou e foi ultrapassado. A roda da história não gira para trás. Se ele foi decisivo em 2002, vendo seu retrospecto recente, o time que conseguiu montar no Palmeiras, nada me faz crer no mesmo dez anos depois. Mas, aguardemos. Com a confirmação do novo treinador, volto ao assunto.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Kiss - Detroit Rock City

Há um poema maravilhoso de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, que começa assim:

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia".

Sei que o Kiss já executou milhares de vezes (literalmente) a música Detroit rock city. Mas, para mim, esta versão abaixo é a melhor de todas. Não porque ela seja a melhor de fato. Mas porque, assim como o Tejo não poderia ser mais belo que o rio que corria na aldeia do poeta - mesmo que fosse - porque não era o rio que corria em sua aldeia, esta versão é a melhor já feita, porque foi esta a que vi, ao vivo, pela primeira vez, no último sábado, em São Paulo. Foi com ela que meu coração disparou, aguardando a realização daquele velho sonho de adolescência. Por isso, para mim, ela é - e sempre será - a melhor.

Rock on!





quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Um menino, uma banda, um sonho


Corriam os primeiros meses do ano 2000. O mundo não tinha acabado, e eu me preparava para cair na noite pela primeira vez. Primeira balada. Primeira vez que ficaria até altas horas na rua. Era sábado à noite, festa organizada pelo colégio onde estudava. Nada demais. Mas, como seria a tônica dali para frente, estava ansioso. Muito ansioso. Inseguro. Não sabia o que esperar, como me comportar. Muitos de meus amigos já tinham certa experiência no assunto. Eu não. Caseiro e extremamente tímido, minha vida social até então (tinha 14 anos à época) limitava-se a sair para comer pizza com a turma, ir ao cinema ou coisas assim. Agora, de alguma forma, eu dava um passo além. Para mim, ao menos, era.

Sem saber muito o que fazer para matar o tempo até às 23 horas, quando deveria chamar meu pai, que então dormia, para me levar, me fechei no meu quarto e decidi ouvir um pouco de música para tentar me distrair. A escolha, àquela altura, só poderia ser uma: algum CD de rock, especialmente do Kiss, à época a banda que eu mais ouvia e tentava, na minha guitarra, copiar. Coloquei o mítico álbum Destroyer, de 1976, e meio que por impulso, pulei para uma de minhas faixas prediletas, “Shout it out loud”. O Kiss, como se sabe, nunca foi uma banda marcada por letras profundas, mas conta, ao longo de sua trajetória, com algumas peças e versos interessantes, especialmente sobre a necessidade de aproveitarmos a vida ao máximo, acreditar em nosso potencial, além de várias canções sobre o amor, sexo e relacionamentos, como é de praxe no rock’n’roll, especialmente no chamado hard rock. E “Shout it out loud”, naquele momento, me caiu como uma luva. Não era bom de inglês, acabara de começar fazer um curso particular, mas conhecia algumas letras e suas respectivas traduções através de revistas que comprava. Ao ouvir uma canção sobre alguém que quer ter um pouco de diversão e precisa se sentir confiante, aquela música parecia feita para aquele meu momento: “’cause it’s time o take a stand”, dizia o último verso, que eu repeti na minha cabeça aquela noite toda, e durante outras vezes mais.

Muitos anos se passaram. Algumas conquistas, muitas cabeçadas, a companhia de pessoas certas, acrescidas a alguns aninhos de terapia, me fizeram me conhecer melhor, e conhecer um pouco mais do mundo que me cerca. Fizeram-me superar um pouco a timidez, a insegurança, e até certa baixa auto-estima. Mas, de alguma forma, mesmo que indiretamente, aquela banda de cabeludos mascarados participou de todo esse processo. Afinal, era o Kiss uma das trilhas sonoras que me ajudavam a prolongar o êxtase dos momentos de alegria – como quando passei no vestibular, ou comecei a namorar minha atual esposa –, ou que também arranhava na guitarra para descontrair e sonhar. Também era o Kiss que eu colocava quando tentava ou precisava ficar “pra cima” nos (nada raros em certo período) momentos de depressão, incerteza, angústia e medo.

Apesar disso, nunca achei que os veria pessoalmente. Quando eles vieram para o Brasil pela terceira vez, em 1999, tinha acabado de conhecê-los. Aliás, foi um cartaz anunciando aquele show da Psycho Circus Tour, na antiga revista Showbiz (que acho que nem existe mais), que me encantou. Ficava olhando aqueles personagens que variavam, dependendo do ângulo, entre palhaços (no bom sentido) e demoníacos, e dizia para mim mesmo: “preciso saber quem são esses caras”. Depois de muitas idas e vindas (deles e minha), o Kiss retornou ao Brasil em 2009. No entanto, a falta de $$, mais os compromissos acadêmicos do mestrado que eu fazia à época, abortaram minha chance de vê-los. Sinceramente, já tinha desencanado da possibilidade de ir a um show – afinal, nunca se sabe até quando vai o fôlego de uma banda quase quarentona –, quando eles anunciaram um novo disco para 2012, Monster, e uma turnê que passaria por essas bandas. Depois de ouvi-lo e aprová-lo, só poderia comprar meu ingresso para o show de Sampa e, quase sem querer, realizar um velho sonho adolescente – mesmo que não tenha oportunidade de conhecer um de meus integrantes preferidos, o guitarrista Ace Frehley, que infelizmente não está mais na banda.

Enfim, muita coisa aconteceu desde aquele sábado à noite. Muita mesmo. Mas, de alguma forma, um pouco do que sou hoje, e mesmo daquilo que desejo e sonho (para mim e para o mundo), ainda devo à influência inesperada daquela banda norte-americana de rock alegre e descompromissado. Por isso, toda vez que me pego ouvindo alguma música do Kiss, para além das memórias que muitas me trazem, não posso deixar de gritar bem alto, mesmo que seja só dentro da minha cabeça: “obrigado”.

A seguir, um vídeo devastador de “Shout it out loud”, abrindo o primeiro show da Reunion tour, turnê que marcou a volta da formação original da banda, em 1996 (e durou até 2002).





quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Notas sobre meio ambiente e socialismo


Tema historicamente negligenciado pela esquerda (a começar pelo próprio Marx), o meio-ambiente foi colocado em pauta a partir dos anos 1970 até se tornar, neste século, um tópico obrigatório em qualquer discussão política progressista – especialmente para partidos e movimentos anti-capitalistas. Se as experiências pós-capitalistas do século XX nos demonstraram a impossibilidade de se construir o socialismo sem democracia, como nos lembrava Carlos Nelson Coutinho num célebre ensaio (A democracia como valor universal), agora é preciso acrescentar à gama de conceitos obrigatórios do roteiro socialista a preservação ambiental.

No entanto, até mesmo por conta da falta de bons referenciais teóricos a respeito, há dificuldade, sobretudo em setores de esquerda historicamente mais vinculados ao marxismo ou a teorias marxizantes, em assimilar essa pauta. Mesmo um partido grande e estruturado como o PT padece desse mal. Apesar disso, é preciso chamar a atenção para o fato de que a luta pela sustentabilidade ambiental recoloca na ordem do dia – e por vias inéditas – a utopia socialista. Senão, vejamos.

Desde o último quarto do século passado, o fordismo deixou de ser o padrão hegemônico de acumulação capitalista. Por conseguinte, a estrutura social que sustentava esse modelo (e dialeticamente se constituía a partir dele) foi severamente modificada. O mundo mais rígido e homogêneo do fordismo, da produção e do consumo em massa de mercadorias padronizadas, cedia lugar, como observa Terry Eagleton, “ao mundo efêmero e descentralizado da tecnologia, do consumismo e da indústria cultural, no qual as indústrias de serviços, finanças e informação triunfam sobre a produção tradicional, e a política clássica de classes cede terreno a uma série difusa de ‘políticas de identidade’”. É o modelo da acumulação flexível, segundo a definição do geógrafo David Harvey. A contrapartida mais evidente deste novo padrão de acumulação de capital, foi (e é) a crescente dissolução do antigo mercado de trabalho: a precarização dos empregos, a disseminação dos “subempregos” informais, bem como uma ofensiva inédita, em escala global, de flexibilização dos direitos, ajustada à nova realidade de dispersão espacial e temporal das unidades produtivas, bem como ao ritmo de giro cada vez mais acelerado do capital.

De um ponto de vista político, Marx enxergava um lado positivo no aparecimento da grande indústria: ela permitia a concentração, num único local, de centenas de trabalhadores que, explorados em iguais condições, poderiam mais facilmente adquirir consciência de sua situação em comum. Assim, a luta contra o capitalismo seria facilitada pelos próprios meios fornecidos pelo capital. “A burguesia cria seus próprios coveiros” dizia o célebre Manifesto Comunista.

No mundo do trabalho contemporâneo, essa concentração, quando existe, é cada vez mais residual. Agora há, na verdade, um movimento crescentemente diáspórico, relacionado à realidade – hoje duramente experimentada pelos europeus, mas que nos é bastante familiar – de desemprego estrutural, subempregos etc., que acirra ainda mais a competição entre os trabalhadores, exacerba o individualismo, e desacredita a grande política, como dizia Gramsci. Diretamente vinculada à velocidade do giro do capital em seu processo reprodutivo atual, vivemos a época do aqui-agora sem profundidade dimensional, a estetização da vida, o elogio do simulacro, ampliado de modo praticamente ilimitado e facilitado pelas novas tecnologias, sobretudo virtuais.

Politicamente, os referenciais objetivos de luta comum dos trabalhadores, que permitiam a construção de uma subjetividade em consonância com sua posição no processo produtivo, isto é, que permitiam alguma forma de consciência de classe, foram praticamente dissolvidos. As dificuldades atuais da luta sindical são um exemplo patente dessa conjuntura. Num mercado fragmentado, em que cada dia se trabalha (por necessidade) num local diferente, para um patrão diferente, muitas vezes sem direitos e/ou garantias trabalhistas mínimas, sem direito a férias etc., qualquer traço de solidariedade requisitado pela ação sindical (para não falar daquela ação política de maior magnitude) torna-se exíguo.

Todo esse amplo movimento, aqui apenas esboçado, cuja finalidade explícita nada mais é do que renovar as possibilidades de acumulação do capital diante das contradições estruturais do próprio sistema, e que ficou conhecido como neoliberalismo, foi devidamente legitimado nas últimas décadas pelo discurso ideológico pós-moderno. Em linhas gerais, contra visões “totalizantes”, amplas, da sociedade e da História, como é o caso do marxismo, que almeja construir uma nova sociedade universal, cujo princípio organizador se contraponha ao princípio vigente (também universal) do mercado capitalista (a assim chamada globalização), o pós-modernismo celebra uma experiência “volátil e efêmera”. Desconhecedora de “qualquer sentido de continuidade”, tal experiência “se esgota no presente vivido como instante fugaz”, a partir de “uma adesão à descontinuidade e à contingência bruta”, como explica Marilena Chauí. Na ideologia pós-moderna, prossegue a filósofa, a sociedade “aparece como uma rede móvel, instável, efêmera de organizações particulares definidas por estratégias particulares competindo entre si”. Assim, o pós-modernismo transforma as exigências (econômicas, políticas, culturais e ideológicas) do capital em virtude. Por conseguinte, reforça a percepção de que a luta política por uma outra sociedade já não faz sentido.

Ora, o problema da preservação ambiental coloca justamente em xeque a ideologia pós-moderna, ao mostrar que o problema do meio-ambiente é um problema universal. Que não se relaciona apenas a um momento efêmero, circunscrito a um espaço particular, mas que põe em risco, de fato, a própria sobrevivência da humanidade como um todo. E que, portanto, só pode ser resolvido nesta perspectiva.

Marx definia o capitalismo como “uma formação social em que o processo de produção domina os homens, e ainda não o homem o processo de produção”. Ao protestar contra a relação atual do homem com a natureza, o que a questão ambiental precisamente nos demonstra é a necessidade (e mesmo a urgência) de invertermos a lógica que subsume o homem ao capital. Afinal, a preservação do meio-ambiente e da vida em nosso planeta depende fundamentalmente do uso racional dos recursos finitos, da aplicação de nosso conhecimento no melhor aproveitamento desses recursos, da melhor distribuição da produção e do consumo sustentável. No entanto, tais exigências não podem ser satisfeitas numa conjuntura na qual a última palavra é da irracionalidade da acumulação do capital.

A preservação do meio-ambiente requer uma nova relação com a natureza, uma nova forma de utilizarmos os recursos naturais. Numa palavra, uma nova forma de trabalho. Mas a forma como consumimos está diretamente relacionada à forma como produzimos e distribuímos aquilo que foi produzido. Produção-distrbuição-consumo perfazem um nexo estruturalmente indissociável. Não se muda de fato um dos elementos sem que se alterem os outros. Isso significa que novas formas de consumo exigem formas racionais de produção, ambientalmente sustentáveis, que exigirão novas formas de distribuição, orientadas em atender as necessidades básicas de todos e minimizar (ou anular) o desperdício. Essa configuração é impossível na perspectiva da anarquia intrínseca ao mercado capitalista e da acumulação de capital. Há, de fato, uma contradição essencial entre uma produção de bens planejada e orientada segundo critérios racionais de sustentabilidade ambiental e a produção capitalista de mercadorias, com suas relações (inter-humanas e com a natureza) cujo fim último é tão somente reproduzir o capital. Por isso, cumpre sempre destacar que o controle do homem sobre seu trabalho, sobre sua relação com o meio-ambiente e os outros homens, sobre as formas de satisfazer as necessidades básicas de todos, só é possível a partir do momento em que começamos a inverter a lógica vigente.

Nesse sentido, a pauta ambiental traz positivamente, a partir de um problema objetivo da maior gravidade, um novo fôlego para a luta anti-capitalista. Sem cair no catastrofismo (que também pode servir a interesses escusos daqueles que lucram com a degradação ambiental), é preciso que o discurso socialista, em sua disputa por uma nova hegemonia, seja capaz de refletir e incorporar de fato (e não apenas de modo formal, como acontece muitas vezes) a defesa do meio-ambiente e de uma nova e saudável forma de o homem se relacionar com a natureza, orientado pela impossibilidade estrutural de o modo de produção atual responder satisfatoriamente a esse desafio. Com isso, mesmo diante das dificuldades inéditas de fazer acreditar a grande política, a velha questão sobre o sujeito histórico da mudança pode ganhar novos ares, inclusive pela possibilidade de incorporação de novos atores que, ausentes na perspectiva marxista clássica centrada exclusivamente na oposição insuperável capital-trabalho (sobretudo os setores “médios” da sociedade, e mesmo parte da “pequena-burguesia”), também podem se alinhar à causa socialista em nome da defesa necessária da vida e do planeta contra o “trabalho-morto” do capital.


domingo, 28 de outubro de 2012

Vitória do PT nas eleições 2012

Mesmo com toda a campanha midiática contrária, apoiada na "coincidência" do "julgamento" do mensalão com o período eleitoral, o PT cresceu em número de prefeituras, ganhou a disputa em São Paulo e sai vitorioso dessas eleições, como o partido mais votado do país. Mais do que isso: consolida o projeto democrático-popular que tem mudado e, esperamos, mudará ainda mais a cara do Brasil.


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Reta final do Brasileirão


No dia 26 de agosto, publiquei um post (leia aqui) com um balanço do primeiro turno do Brasileirão e alguns prognósticos para o segundo turno. As previsões basicamente se confirmaram, conquanto eu não acreditasse numa queda tão acentuada do Vasco, nem que o Fluminense, virtual campeão, fosse capaz de disparar na primeira liderança. Tampouco, acreditava que o Palmeiras chegasse a essa altura tão próximo do rebaixamento, embora ainda ache que é possível que os palestrinos escapem.

Quanto ao São Paulo, as últimas rodadas demonstraram um amadurecimento da equipe, que conta, depois da afirmação de Denílson e Wellington como volantes e, surpreendentemente, de Paulo Miranda na lateral, com um sistema defensivo mais sólido. Na frente, além do motorzinho Lucas, Osvaldo finalmente tem mostrado serviço, e Luis Fabiano continua o artilheiro de sempre. Por isso, é absolutamente plausível acreditar na última vaga para a Libertadores, hoje restrita a São Paulo e Vasco, mas com boa vantagem para o tricolor do Morumbi, que conseguiu abrir cinco pontos do rival carioca. No entanto, é preciso abrir o olho: as próximas rodadas serão difíceis para o time do Morumbi, que enfrenta Flamengo e Sport fora, Fluminense em casa e Grêmio fora. É a hora de o São Paulo definitivamente se garantir na competição sul-americana do próximo ano. Algo que, para um time que teve Leão no comando por sete meses, é uma grande conquista.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O PT, Chávez e Che


O dia 07 de outubro de 2012 foi um dia especial para a luta dos trabalhadores e para as causas populares. No plano nacional, apesar de algumas derrotas importantes como em BH, Recife (para não falar da minha São Carlos, que depois de 12 anos petistas entregou dolorosamente a prefeitura para os tucanos), o PT obteve recorde histórico de votos para prefeito, consolidando seu crescimento constante na última década. Enquanto PDSB, DEM e mesmo o PMDB encolheram, o PT obteve 17, 2 milhões de votos neste ano, contra 16,5 milhões em 2008 (o que representou também um aumento significativo no número de prefeituras comandadas pelo partido, que até aqui somam 624). Isso apesar da campanha permanente contrária da grande mídia e de certos setores da sociedade, que, neste ano, abastecidos com o julgamento do “escândalo do mensalão”, não se cansaram de emitir prognósticos sobre uma suposta derrocada do partido. Mas, o que o impacto nulo que o circo armado pelo STF para condenar os dirigentes petistas às vésperas do primeiro turno das eleições demonstrou, é que o PT não morrerá por decreto de ninguém, porque sua causa é justa, porque o projeto político popular de justiça e igualdade social que o partido representa (apesar de todas as suas contradições) não desaparecerá enquanto não for plenamente realizado.

No plano internacional, a vitória expressiva de Hugo Chávez, na Venezuela, acentuou o caráter histórico desse dia. Afinal, o presidente venezuelano enfrentou uma batalha não apenas contra seu adversário direto, o direitista Henrique Caprilez, e contra os problemas naturais de seu governo, mas também contra a burguesia local, com todo seu poder econômico, político, e midiático; contra a torcida escancarada das burguesias latino-americanas e de seus porta-vozes da grande imprensa (basta notar que o destaque dos jornalões e das TV brasileiras foram a boa votação de Capirlez, jamais a vitória chavista, que para eles nunca teve mérito por nada, mas só ganha porque “controla” o povo e a imprensa); e contra o imperialismo norte-americano. A vitória de Chávez é, como já havia dito no post anterior, a vitória da América Latina livre e progressista, de nossa soberania e de nosso processo de integração calcado na solidariedade e na justiça social.

Aliás, por falar nisso, nesta terça-feira, 09 de outubro, completam-se 45 anos do assassinato de Ernesto “Che” Guevara. Embora esteja longe de ser uma data festiva para a esquerda (na verdade, para toda a humanidade), ela nos lembra da importância da luta e do legado deste homem excepcional, a quem o filósofo francês Jean-Paul Sartre certa vez definiu como "não apenas um intelectual, mas também o homem mais completo de nosso tempo e o ser humano mais perfeito de nossa era". Pois, como bem disse o companheiro Stanley Burburinho no twitter (@stanleyburburinho), “há 45 anos assassinaram Che Guevara, mas não conseguiram matá-lo”. De fato, o sonho de Che por uma América livre, por uma sociedade justa e fraterna, segue vivo. Apesar de todos aqueles que lutam para sufocá-lo. 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Na Venezuela, o futuro da América Latina


No próximo domingo, dia 07/10, enquanto os olhos dos brasileiros estiverem voltados para as eleições municipais, em outro pleito decisivo, na Venezuela, o futuro de toda a América Latina estará em jogo. O atual presidente Hugo Chávez tentará sua reeleição, numa disputa com o direitista Henrique Capriles, candidato da elite local e dos EUA.

Chávez foi o primeiro presidente de esquerda eleito após a onda neoliberal que assolou nossa região nos anos 1980/1990, em 1998. Com um governo popular, de inversão de prioridades e privilegiando as classes mais baixas, vem promovendo uma verdadeira revolução naquele país, financiada pelo dinheiro do farto petróleo venezuelano (daí o interesse dos EUA na Venezuela), que pela primeira vez é usado para atender os interesses do povo, e que permite a setores historicamente marginalizados, o papel legítimo de sujeitos políticos de seu país. Isto, naturalmente, provocou uma tensão permanente no país, um processo agudo de luta de classes. Sobreviveu (literalmente) a um golpe de Estado em 2002, promovido pela burguesia local com apoio norte-americano. Foi reeleito em 2005, e agora tenta prosseguir sua “Revolução Bolivariana”. Tem apoio popular, lidera todas as pesquisas de intenção de voto com boa margem (cerca de 20%), mas luta contra forças que sabidamente podem se valer de qualquer meio para conseguir seus objetivos – a começar pelo imperialismo norte-americano.

O medo dos apoiadores de Chávez é que a oposição não reconheça os resultados das eleições do dia 07 (se de fato perderem) e tentem – sob a acusação de “fraude”, “compra de votos” etc. – desestabilizar o país e sua democracia. Independentemente das críticas pontuais que se possa fazer a Chávez, ao seu governo etc., neste momento, é preciso ter em mente que uma derrota chavista seria um duro golpe no cenário progressista, que tomou conta da região depois de sua vitória e da vitória de Lula, em 2002. Hoje, a América Latina, especialmente no Sul, é um verdadeiro laboratório de experiências que buscam superar o neoliberalismo e seus efeitos nefastos. A Venezuela é uma das pontas deste processo. Uma derrota de Chávez poderia servir de combustível para a direita combalida, mas jamais morta, em nosso continente – da mesma forma que sua vitória e seu governo foram importantes impulsos para os sucessos subsequentes da esquerda na região. Portanto, como disse há alguns meses o ex-presidente Lula (ver ) em mensagem ao Foro de São Paulo (congresso que reúne os partidos de esquerda e movimentos sociais do continente), a vitória de Chávez, mais do que a vitória do povo venezuelano, é a vitória de toda a América Latina.


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Parabéns a alguém mais do que especial

Uma pausa na filosofia, na política, para homenagear alguém muito especial. Hoje, minha esposa celebra mais um ano de vida. Isso, somado ao fato de termos completado seis meses de casados no último sábado, multiplica os motivos de comemoração! 

Angel, quero, por isso, te desejar toda felicidade do mundo, muitos anos de vida, muita paz, alegria, saúde e amor. Espero poder compartilhar de muitos outros momentos felizes ao seu lado. Te amo!

PARABÉNS!!!

















quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O analfabeto político

Com as eleições se aproximando, e com a recorrência daqueles discursos orientados na linha "todos os políticos são iguais", "odeio política" etc., achei que seria de bom tom tratar do assunto. Mas, qualquer texto que escrevesse aqui, seria menos bem sucedido do que o poema O analfabeto político, do alemão Bertolt Brecht. Por isso, decidi reproduzi-lo, como uma verdadeira advertência da necessidade de participarmos ativamente da vida política de nossa cidade, de nosso estado, de nosso país.

O analfabeto político
por Bertolt Brecht

O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo da vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado
e o pior de todos os bandidos:
O político vigarista,
pilantra, corrupto e lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Espinosa, o "mensalão" e o sistema político brasileiro

A edição 104 da revista Teoria e debate conta com artigo de minha autoria, no qual discorro sobre  a "privatização da política" que se dá no âmbito do discurso conservador dominante. Esse processo privatizante é flagrante no julgamento do chamado "mensalão", no qual tenta-se criar uma falsa oposição entre "bons" e "maus" políticos, através de uma régua moralista, sem base material, enviesada pela lógica da vida privada, que sequestra a moralidade pública, pois não se aplica a esta, como explica o filósofo Baruch de Espinosa, nos termos que crê o senso comum.

Assim, não se questiona o arcabouço político-institucional que favorece práticas de corrupção, mas se reduz a discussão a uma questão de "caráter". No entanto, é preciso observar que tal procedimento não é feito sem interesses escusos por trás, mas visa conservar à força o poder daqueles setores que têm sido derrotados nas urnas, através da dissolução paulatina da esfera pública. Com efeito, "não causa estranheza que, em nenhum momento desde que se denunciou o "mensalão", menos ainda durante o "julgamento" (que mais parece um linchamento de um partido e alguns de seus dirigentes), a grande mídia, os partidos de direita e demais setores economicamente hegemônicos no país tenham se pronunciado a favor de mudanças no sistema político-eleitoral", este sim, o âmbito no qual a corrupção é favorecida. Por isso, é preciso que toda a esquerda trabalhe no sentido de "desprivatizar" radicalmente a política, trazendo-a para o domínio democrático do público.

O artigo completo pode ser lido aqui.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Por que votar em Oswaldo Barba?


Passadas quase duas semanas do início da propagando eleitoral gratuita em rádio e TV, e a pouco mais de um mês das próximas eleições, a disputa deste ano finalmente ganha contornos mais nítidos, com os eleitores podendo conhecer melhor os candidatos, seus projetos e ideias para os próximos quatro anos.

Em São Carlos, o petista Oswaldo Barba tenta a reeleição, emplacando o quarto governo consecutivo do PT na cidade, contra o tucano Paulo Altomani e os neo-oposicionistas Eduardo Cotrim (PMDB) e José Saccomano (PPL), além de Flavio Lazzarotto (PSOl) e Ronaldo Motta (PSTU). Ao que tudo indica, o núcleo da disputa deve mesmo se dar entre Barba e Altomani. Nesse cenário, as eleições de São Carlos trazem novamente à tona o embate entre dois projetos antagônicos de cidade. De um lado, o projeto petista de desenvolvimento social inclusivo, com participação popular e respeito ao meio-ambiente. De outro, o projeto do PSDB de “levar a lógica da iniciativa privada para a administração pública”, através de um imediato “choque de gestão” (as palavras são do candidato Paulo Altomani em seu programa de TV).

É um fato incontestável que São Carlos melhorou muito durante a administração do PT, seja com o agora deputado federal Newton Lima, seja, mais recentemente, com Oswaldo Barba. Houve crescimento econômico, geração de empregos, distribuição de renda. A população aumentou, mas a desigualdade social foi reduzida. São Carlos tornou-se uma das cidades com melhor qualidade de vida do estado e do país, tornando-se referência em diversas áreas, como, por exemplo, no atendimento às crianças, o que rendeu a Newton e Barba sucessivos prêmios de “Prefeito amigo da criança” da Abrinq. Depois de décadas, São Carlos ganhou um novo hospital, um novo distrito industrial, uma política para o meio ambiente, um plano diretor, e canais inéditos de participação popular e transparência, dentre outros avanços. Mais recentemente, a administração de Barba construiu do zero um novo bairro, o Jardim Zavaglia, no qual mil famílias receberam sua casa própria, num local onde a prefeitura prontamente estruturou, levando saneamento básico, posto de saúde, escola e área de lazer. Isso para não falar nas outras 4000 residências entregues pela última administração, um recorde na cidade.

Isso, claro, não significa que não haja pontos falhos, erros de planejamento ou execução, insuficiências. A população (ou parte dela) lista, com todo o direito e justiça, problemas na área da saúde, em alguns serviços e obras públicas, ou no interior da máquina administrativa. Não se trata de tapar o sol com a peneira e dizer que São Carlos seja uma cidade perfeita, que a atual administração não tenha cometido erros e deslizes, como todas, aliás, em algum grau cometem. Também por isso, é absolutamente natural que, após 12 anos no governo, haja desgastes, e tanto Barba quanto o PT sejam obrigados a lidar com insatisfações e críticas de parte da população. Além disso, a parcela mais jovem dos eleitores cresceu numa cidade quase sempre governada pelo PT e, portanto, é compreensível que muitos desejem “mudança”. No entanto, é preciso ficar atento para que esse anseio sempre legítimo por mudança não signifique arriscar tudo o que a cidade conquistou desde 2001.

Nesse sentido, a questão de fundo a ser levantada neste momento é: está na hora de alterarmos completamente o rumo político de nossa cidade? Ou seria o caso de seguirmos pela via traçada desde a última década, que tem se mostrado justa, mas aparando as arestas, superando as dificuldades, corrigindo as falhas?

Colocando na balança os erros e acertos do governo petista, fica claro que é esta segunda opção que indica o caminho correto a seguir. Afinal, o que está de fato em jogo nessas eleições não é uma simples escolha pessoal, a preferência pelo perfil do candidato A, B ou C, mas sim garantir a sequência de uma linha progressista de políticas públicas que se conforme com uma visão democrática de cidade. Um município não é uma fábrica, a lógica da coisa pública não é a mesma da iniciativa privada. Um bom prefeito não é aquele que consegue fazer a prefeitura “dar lucro”, nem mesmo aquele que ergue mais prédios ou tapa mais buracos, embora isso também seja necessário. O bom prefeito é aquele preparado para por em prática um projeto global de cidade, projeto que seja capaz de conciliar, de maneira positiva e socialmente justa, as demandas perenes da população (saúde, educação, emprego, segurança, cultura, lazer etc.) com políticas aptas a promover um desenvolvimento sustentável e inclusivo. É aquele capaz de ampliar o espaço público, a participação e a consciência dos cidadãos, com respeito às individualidades e à democracia. É aquele cuja administração possa colocar a prefeitura a serviço da população, “a cidade em primeiro lugar”. Em São Carlos, apenas o voto em Oswaldo Barba, o voto 13, é a garantia de que continuaremos, nos próximos quatro anos, nos aproximando desse ideal.

domingo, 26 de agosto de 2012

Terminou o 1º turno do Brasileirão. E agora?

Uma vez findo o primeiro turno do Campeonato Brasileiro, algumas projeções já podem ser feitas para a fase final da competição. Atlético/MG e Fluminense devem mesmo se firmar na luta pelo título, com Vasco e Grêmio correndo por fora. O Galo, aliás, sobrou nesta primeira metade do campeonato e, se continuar assim, deverá ser campeão até com alguma facilidade. O Flu, embora tenha um elenco forte, e seja o único que demonstra condições de impedir uma escapada do time mineiro, ainda não apresentou um futebol realmente empolgante.

No que diz respeito à Libertadores, um eventual vacilo de um dos quatro primeiros – nesse sentido, talvez o Vasco viva hoje o pior momento dentre os líderes, e seja o mais passível de “refugar” no returno – São Paulo, Inter, Cruzeiro, Botafogo e Santos, times com potencial, mas extremamente inconstantes, podem sonhar com uma vaga na Libertadores. Lá embaixo, a situação aprece mais embolada e, fora o Figueirense, e talvez o Sport, os outros seis ou sete últimos, inclusive o Palmeiras, correm risco de rebaixamento. 

Falando do São Paulo mais especificamente, esse primeiro turno foi marcado pelos altos e baixos da equipe, explicados, respectivamente, pelos bons momentos de Lucas e Luis Fabiano, quando estes puderam jogar, ou pelo péssimo desempenho defensivo da equipe. Se Ney Franco conseguir melhorar um pouco a defesa são-paulina (para tanto, a volta de Wellington, a consolidação de Paulo Assunção e o recente crescimento no futebol de Denilson podem ajudar e muito), o time pode, na esteira da ótima vitória diante do Corinthians nesta última rodada do turno, conseguir uma imediata sequência positiva, sem tantos tropeços (digamos, 13 ou 14 pontos nas seis primeiras rodadas do returno), que o habilitariam a roubar uma das vagas para a Libertadores dos atuais líderes.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

The Cure - Friday I'm Love

Há exatos 5 anos, precisamente numa sexta-feira, 17 de agosto, Angelica e eu começamos nossa história. Meia década depois, já casados, só posso agradecê-la por esse período maravilhoso em que posso desfrutar de seu amor, sua amizade e sua companhia. Muito obrigado, Angel!
E, para marcar esta data, uma música cujo título diz tudo: It's Friday, I'm love!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Brasil - Olimpíadas e a nossa realidade esportiva


 Outra edição dos Jogos Olímpicos se aproxima do fim, e não dá para negar a sensação de que o desempenho brasileiro, em número de medalhas, ficou aquém do desejado e de nosso potencial - impressão que uma ou outra medalha a mais que não veio em nada mudaria. A meu ver, dentro da realidade dos atletas de ponta, o principal responsável por esse cenário, para além das contingências de cada competição, é o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, cuja atuação à frente da entidade é calamitosa. Aliás, não só a dele, mas o da maioria dos presidentes de confederações esportivas. O que a boxeadora Adriana Araújo, medalha de bronze em Londres, disse a respeito do presidente da Confederação Brasileira de Boxe (leia aqui), certamente pode ser estendido e aplicado ao de outras tantas modalidades. Presidentes preocupados apenas com o dinheiro que recebem de patrocínios e governos e pouco se lixando para os atletas e o desenvolvimento esportivo do país.

“Ah, mas o governo também tem culpa!”, poderá retrucar alguém. Sem dúvida. No entanto, me parece que a “culpa” maior do governo (ou dos governos, uma vez que o esporte não é assunto apenas da alçada federal) não se refere exatamente aos atletas olímpicos em sua maioria. Estes, em bom número, são auxiliados, especialmente pelo governo federal, seja pelo bolsa-atleta – criado por Lula em 2004, cuja verba, aliás, contribuiu para nossos dois ouros individuais, de Sarah Menezes e Arthur Zanetti; seja através do patrocínio de estatais – basta ver, sobretudo em outras competições, nas quais os atletas utilizam uniformes próprios, as logomarcas da Caixa, do Banco do Brasil, dos Correios, da Petrobras etc., e a quase ausência de logomarcas de empresas privadas para se ter ideia da relação entre capital público e privado no montante do patrocínio total dos atletas (este último muitíssimo menor do que o primeiro, salvo em uma ou outra modalidade).

A principal falha do governo, em minha opinião, é não desenvolver uma política pública efetiva de promoção do esporte nas escolas. É desnecessário lembrar da defasagem estrutural de grande parte dos prédios escolares no Brasil, o que impede muitos alunos de terem aulas de educação física, consequentemente, um primeiro contato com a prática de outros esportes para além do futebol. Contudo, mesmo naquelas escolas que contam com uma quadra minimamente decente, a própria concepção da aula de educação física – muitas vezes vista como mera recreação por parte dos alunos e “tempo perdido” por parte dos profissionais da educação – não favorece a disseminação do esporte, do cuidado com a saúde, e de alguns valores que este pode proporcionar: o espírito de solidariedade, a competição sadia, o “aprender a perder”, a superação, a determinação, dentre outros.

Assumir o esporte, desde a base, isto é, desde as escolas, como meio de inclusão social, promoção de cidadania e disseminação de valores positivos para o convívio social: esta, a meu ver, deveria ser a tarefa primordial do governo, num trabalho integrado entre MEC, Ministério dos Esportes, governos estaduais e municipais – trabalho este que se existe, ainda deixa muito a desejar. Melhorar a estrutura das escolas, rever o conceito da educação física no âmbito escolar, auxiliar na construção de centros poliesportivos pelo interior do país, sem claro, descuidar da outra ponta, dos atletas de nível nacional e internacional de competição. Mais do que verba, pura e simplesmente, a vontade política de todos os atores é fundamental. Apenas assim, o esporte poderá contribuir para uma formação cidadã mais completa e que tanta falta nos faz. A existência de campeões olímpicos, atletas de ponta etc. será uma consequência natural da concretização deste movimento.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Sobre a contingência


Há pelo menos duas grandes orientações filosóficas do estudo da contingência que se conflitaram no século XX. A primeira, da qual podemos imputar seu delineamento a Sartre, tem o objetivo de contrapor às teorias cientificistas e positivistas que previam maior ou menor grau de determinação do indivíduo, uma teoria da liberdade. Na filosofia sartriana, por exemplo, dizer que o existente é contingente é a contrapartida da noção de que ser humano é igual a ser livre. E a liberdade, para Sartre, só faz sentido enquanto imperativo para a ação. Porque, no homem, a existência precede a essência, o ser humano é aquilo que ele se faz. Mas, o que ele fará de si não está determinado por nenhuma instância a priori. Assim, a tomada consciência do caráter contingente de nossa existência, ao mesmo tempo em que provoca “náuseas” devido à perda de nossas referências e de nossa estabilidade – como em Antoine Roquentin, personagem principal do romance sartriano A náusea –, é também o que nos chama a agir, a criar nosso mundo, nossa história e nós mesmos. É a senha, enfim, para a busca de algum sentido cujo horizonte, longe de estar pré-determinado, é desenhado por nós mesmos, inclusive em termos sociais.

Por outro lado, em alguma medida radicalizando essa posição expressa por Sartre, mas subvertendo-o negativamente, o discurso pós-moderno, fortemente inspirado pela filosofia pós-estruturalista, faz da contingência o traço distintivo de toda a realidade. No entanto, transmuta o caráter ativo da primeira orientação numa celebração frívola da efemeridade e da volatilidade da experiência. Porque nada é necessário, ou melhor, porque a própria oposição entre necessidade e contingência é compreendida como uma questão presa aos ditames de uma “racionalidade monológica” (a Razão moderna), o discurso pós-moderno desloca o caráter positivo que decorre daquela noção de contingência em nome de uma suposta volubilidade das verdades, de uma liquefação da vida. Desconhecedor de qualquer sentido de continuidade, festeja um tempo que se esgota no presente vivido, no instante fugaz, na adesão à descontinuidade, na afirmação de um aqui-agora sem profundidade. Nesses termos, do caráter contingente da realidade, a concepção pós-moderna, apesar do discurso à primeira vista atraente, conduz à afirmação mais ou menos implícita da inutilidade das ações coletivas (sobretudo aquelas de maior envergadura, mais “utópicas”), porque forçosamente incapazes de contornar (logo, diferentemente do que a concepção de Sartre previa) o caráter gratuito da realidade, isto é, de conferir-lhe algum sentido. No limite, portanto, à apatia e à assunção do niilismo. Não surpreende, assim, que esse discurso sirva de substrato ideológico da fase contemporânea do capitalismo.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

2 anos de blog


O blog Filosofia e coisas da vida completa, neste mês de julho, dois anos de existência. Gostaria de agradecer, em primeiro lugar, a minha esposa, Angelica, pela força para começar e seguir neste projeto. Também a todos os amigos e amigas que visitam diariamente este espaço, especialmente aqueles que contribuem com seus comentários, elogios, críticas e sugestões, seja aqui, no próprio blog, seja mediante outras redes sociais.

Escrever assiduamente para um público em sua esmagadora maioria desconhecido, sobre assuntos os mais variados, e muitas vezes polêmicos, sem medo de tomar partido, tem sido uma grande e prazerosa, (ainda que, confesso, por vezes difícil) experiência. Mas, o retorno que tenho dos textos, o número de acessos diários, me deixa contente e buscando sempre melhorar naquilo que é a proposta do blog: convidar à reflexão filosófica e ao debate democrático de ideias sobre nosso cotidiano, o presente e o futuro.

A todos, meus sinceros agradecimentos!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O segredo dos seus olhos (El secreto de sus ojos)

Benjamin Esposito, recentemente aposentado do cargo de oficial de justiça de um tribunal penal, decide escrever um livro sobre sua história. Ele usa sua experiência para contar uma história trágica, da qual foi testemunha em 1974. Na época, o Departamento de Justiça onde trabalhava foi designado para investigar o estupro e o assassinato de uma bela jovem. É desta forma que Benjamin conhece Ricardo Morales, marido da falecida, a quem promete ajudar a encontrar o culpado. Para tanto, conta com a ajuda de Pablo Sandoval, seu grande amigo, e com Irene Menéndez Hastings, sua chefe imediata, por quem nutre uma paixão secreta.

A determinada altura, numa das passagens marcantes do filme, Pablo Sandoval descobre, através de cartas cifradas, a paixão ilimitada do suspeito pelo Racing Club, tradicional time de futebol argentino. E, voltando-se para Benajmin, diz uma das mais belas e instigantes frases do cinema contemporâneo: “Você se dá conta, Benjamin? Uma pessoa pode mudar tudo: de cara, de casa, de família, de noiva, de religião, de Deus. Mas algo que ela não pode mudar, Benjamin: não pode mudar de paixão”. Outro ponto de destaque é a forma pela qual chega-se ao suspeito: através do olhar que ele dirige à vítima - sua amiga - numa foto, o que motiva, inclusive, o nome do filme.

O segredo dos seus olhos, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010, é uma ótima pedida, que mostra a força, a inventividade e a poesia do cinema portenho.

 *** 


O segredo dos seus olhos (El secreto de sus ojos)

Ano: 2009
Direção: Juan José Campanella
Gênero: Drama
Origem: Argentina; Espanha
Duração: 127 minutos
Elenco: Ricardo Darín, Pablo Rao, Guillermo Francella, Soledad Villamil






sexta-feira, 13 de julho de 2012

Rolling Stones - Hang Fire

Hoje, 13 de julho, é dia mundial do rock. Num dia como ontem, 12 de julho, há exatos 50 anos, as pedras começaram a rolar no primeiro show dos Rolling Stones. Nada melhor, então, do que unir as duas datas. Em homenagem ao dia do rock, um clássico dos Stones, Hang Fire, do álbum Tattoo You, de 1981.

Longa vida ao Rock'n'Roll!!!


sexta-feira, 6 de julho de 2012

A aposta


A contratação de Ney Franco é, naturalmente, uma aposta da diretoria do São Paulo. E, como toda aposta, sujeita a inúmeros riscos. Portanto, não é exagero dizer que é preciso desconfiar. Em primeiro lugar, porque precisará de tempo, já que o time, embora conte com alguns bons nomes, está uma lástima. Seu contrato vai até o final de 2013. Embora, na prática, isto não signifique nada no futebol brasileiro, ao menos em teoria, sugere que a diretoria quer um trabalho mais longo de Ney, que “confia” nele, diferentemente do que ocorreu na chegada de Leão. Contudo, não sendo um daqueles treinadores “para-choque”, como Muricy ou Felipão, isto é daqueles técnicos que, por seu currículo, são capazes de segurar um período de vacas magras, Ney precisará de respaldo da diretoria até conseguir acertar minimamente a equipe, o que pode sequer ocorrer em 2012. O mesmo respaldo, aliás, dado pela diretoria corinthiana a Tite, após a eliminação da Libertadores diante do Tolima no ano passado, que possibilitou a conquista alvi-negra deste ano. Ocorre que apoio a técnicos é algo que a diretoria, especialmente o presidente (?) Juvenal Juvêncio, não tem oferecido. Muito pelo contrário.

Além disso, é fato que Ney carece de um grande trabalho à frente de uma equipe do tamanho do São Paulo, para poder alcançar o patamar de técnico de ponta. Num clube mais organizado, talvez tivesse seu trabalho facilitado. Mas, no atual momento do SPFC, terá uma dificuldade a mais. A pressão por títulos, certamente ampliada depois dos recentes sucessos dos rivais, somada ao desastre da administração JJ, podem fazer Ney Franco balançar mais do que deveria. Aí, voltamos ao primeiro ponto. Se não tiver respaldo explícito da diretoria, Ney pode não aguentar, fazendo o São Paulo perder mais tempo ainda para se reestruturar e voltar a sonhar alto.

No entanto, é preciso reconhecer que Ney é um cara sério e estudioso. Sabe trabalhar com jovens, e arma bem suas equipes, não sendo retranqueiro. Por isso, insisto: mais do que qualquer outro fator, o sucesso de Ney depende diretamente da forma pela qual Juvenal e seus asseclas se comportarão nos inevitáveis momentos de derrota – que, dado o panorama atual do time, podem sim se prolongar por mais tempo do que o desejado, sem que isso seja culpa do novo treinador. Diante disso, entendo que uma vaga na Libertadores 2013 seria fantástico. Mas, caso não a consiga, isso não deve significar o fim do mundo. O time está um caos, e Ney não poderá reverter isso da noite para o dia. A avaliação deve ser em cima do trabalho no dia a dia, não apenas dos resultados.

Enfim, nos resta aguardar os primeiros passos de Ney à frente do SPFC e torcer pelo seu sucesso. Boa sorte!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Defender a democracia no Paraguai é defender a democracia em toda a América Latina


O golpe contra o presidente paraguaio Fernando Lugo, destituído de seu cargo num processo de impeachment levado a cabo pelo Congresso paraguaio em tempo recorde, com duração de 24 horas, ligou o sinal de alerta na América Latina. Não apenas porque se trata de uma nova modalidade de golpe, como sugeriu Tarso Genro em recente artigo (leia aqui), no qual se tenta, ao contrário do modelo clássico, dar uma roupagem “democrática” à deposição (Honduras, em 2009, foi o primeiro ensaio dessa nova prática golpista). Mas principalmente porque a democracia é um valor altamente efêmero no contexto latino-americano, quase sempre dependente de alianças ideologicamente heterogêneas e acordos passíveis de serem quebrados a qualquer momento.

Como se sabe, a democracia é condição indispensável para o prosseguimento da construção de uma alternativa pós-neoliberal, que se desenha há mais de uma década no nosso continente – e cujo ciclo histórico ainda não se esgotou.Por isso, todo cuidado com a direita, com os setores conservadores, e com o imperialismo norte-americano, isto é, com todos aqueles que desejam reverter esse processo transformador em nome de seus retrógrados interesses, é pouco. Mas, em todo o continente, tais setores podem ganhar fôlego caso o golpe paraguaio triunfe definitivamente. A Bolívia começa a sentir os primeiros impactos, com a infiltração de elementos desestabilizadores do governo na greve de policiais que ocorre no país nessa semana. No Brasil, José Carlos Aleluia, um dos nomes mais importantes do DEM, postou em seu perfil do Twitter um sugestivo “se a moda pega”. Aliás, sempre é bom lembrar que no Brasil, um país cuja democracia política é comparativamente mais sólida, tentou-se algo semelhante em 2005, quando o escândalo do chamado “mensalão” serviria de pretexto para uma possível destituição do então presidente Lula. Lula não caiu por uma soma de fatores: as alianças que havia conseguido estabelecer com setores de centro, para além daquelas com a esquerda e a centro-esquerda; ter atrás de si um partido forte e socialmente arraigado; e contar com o apoio de uma base social mais organizada. Esses fatores lhe permitiram enfrentar o processo sem prejuízos diretos para si, embora nomes importantes do governo, como o ex-ministro José Dirceu, tenham sido literalmente sacrificados. Antes de Lula, em 2002, o presidente venezuelano Hugo Chávez sofreu tentativa semelhante de impeachment, que se tivesse sido definitivamente exitosa (Chávez ficou apenas três dias longe do poder), provavelmente teria impedido o ciclo virtuoso que começaria poucos meses depois com a eleição de Lula. Lugo, com uma base muito mais frágil e praticamente isolado, não teve a mesma sorte.

Por isso, é preciso dar todo apoio às decisões da Unasul (União das Nações da América do Sul) e do Mercosul (Mercado Comum do Cone Sul) de suspender o Paraguai dessas organizações, bem como, principalmente, de não reconhecer o novo governo de Federico Franco. Além, claro, de reforçar a resistência do povo paraguaio, que está ao lado de Lugo. Afinal, a defesa da democracia no Paraguai é a defesa da democracia na América Latina, é a defesa do processo transformador que o continente vive desde os anos 2000. 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Rio + 20, meio ambiente e capitalismo


Em documento publicado no último mês, o Diretório Nacional do PT publicava um texto que, a meu ver, resume bem a problemática que estava colocada nesta Conferência Rio + 20. Transcrevo dois trechos a seguir:

 “Do ponto de vista ambiental, a crise internacional só está demonstrando com mais clareza o que já sabíamos e dizíamos há muito tempo: um modelo de desenvolvimento apoiado na ideia de que o mercado é capaz de organizar a vida social, que tem o lucro como principio básico e fundamental, além de ser um modelo excludente, que acentua a desigualdade social, é certamente um modelo em que é impossível pensar numa sustentabilidade ambiental. Esta é uma das ideias centrais que vamos defender, como Partido, na Rio+20: sustentabilidade ambiental não rima com capitalismo, especialmente com capitalismo neoliberal”.

Nesse sentido, quatro desafios eram elencados:

“O primeiro tem um sentido mais estratégico, e refere-se à defesa de um modelo alternativo de desenvolvimento; o segundo tem um sentido teórico-conceitual, considerando que o termo “desenvolvimento sustentável” se universalizou, mas há uma disputa em torno de seus significados e conteúdos; o terceiro é mais institucional, e refere-se aos compromissos e metas que os governos e organismos internacionais devem assumir; e por fim o quarto e talvez o principal: o desafio político, ou seja, o da construção da força necessária para implementar e aprofundar esse modelo alternativo que preconizamos”.

Deste ponto de vista, e como era de se esperar, o rascunho do documento final da Conferência Rio + 20, que a partir de hoje será submetido aos chefes de Estado e de governo que vierem ao Brasil, ficará aquém do desejado. É fato que, como disse a presidenta Dilma nesta terça-feira, “há a necessidade de se fazer um balanço entre os países”, que o rascunho aprovado sob a capitania do Brasil “é o documento possível entre diferentes países e diferentes visões do processo relativo à questão ambiental”. Mas, não dá para negar, ele não responderá de maneira satisfatória aos desafios que estão postos para a humanidade nestas primeiras décadas do século XXI.

Embora possa haver alguma modificação na letra final, as notícias dão conta de que foram excluídos do texto acordado pelos representantes dos países participantes, por exemplo, a criação de um fundo de fomento à sustentabilidade, sugerido pelo G-77 (grupo de países em desenvolvimento, como Brasil e China), claramente por oposição dos países ricos – curiosamente, os que mais poluem –, e propostas mais específicas de metas de sustentabilidade – novamente, por oposição central daqueles mesmos países. No plano social, o parágrafo que mencionava o direito das mulheres sobre seu processo reprodutivo foi retirado por pressão do Vaticano. Mas, para nosso azar, o eixo falacioso da “economia verde” - que, no fundo, apenas pretende manter o modelo  predatório capitalista tal como ele é hoje - prosseguiu.

Mas, então, a Conferência foi um completo fracasso (como também se disse há 20 anos da Eco-92)? Não acho. Primeiro, porque, na pior das hipóteses, um encontro dessa envergadura, que mobiliza desde militantes e ativistas das mais diversas áreas, até os comandantes de grande parte das nações mundiais, é sempre proveitoso. Pelo que pude acompanhar à distância, houve bons debates, boas propostas no âmbito da chamada “Cúpula dos Povos”, que reúne a chamada “sociedade civil”, além de representantes de movimentos sociais, políticos etc. Uma interessante troca de experiências, individuais e coletivas, um acúmulo de forças que renova a esperança de que “o mundo que queremos”, como propõe o lema da Conferência, é um mundo bem diferente do que aquele que está aí. Nesse sentido, vale destacar por exemplo que, apesar dos pesares, o documento final reafirmará positivamente a indissociável díade entre desenvolvimento social e sustentabilidade ambiental – o que me parece um ponto de partida essencial em qualquer discussão séria sobre nosso futuro.

O que emperra esse tipo de negociação, de fato, é contemplar os interesses de alguns países, sobretudo aqueles que são os maiores causadores do drama sócio-ambiental que vivemos, mas cujo poder, infelizmente, nos impede de simplesmente ignorá-los. Isso ficou claro, desde o início, com o esvaziamento provocado pela recusa de líderes como Barack Obama e Angela Merkel em participar da Conferência. Convenhamos, uma reunião de interesse global sem que os EUA e a Alemanha assumam sua enorme responsabilidade diante dos problemas mundiais perde muito de seu poder de fogo. Com esse gesto de ambos, ficou claro o nível do enfrentamento que se daria nessa Conferência.

Enfim, agora é preciso examinar a versão final do documento, mas principalmente, acompanhar de perto os desenlaces desses dias de intensa discussão sobre nossos principais problemas. E, a partir daí, definir os próximos passos em direção a um novo princípio civilizatório, diferente do paradigma capitalista liberal que nos conduziu a essa situação desastrosa.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Copa do Brasil: a hora da verdade para o SPFC


Começam logo mais as semifinais da Copa do Brasil. Hoje, o primeiro confronto entre Palmeiras e Grêmio e amanhã entre São Paulo e Coritiba. Para o tricolor paulista é a hora da verdade. Não apenas por estarmos numa fase aguda da competição, mas principalmente porque a Copa do Brasil representa hoje, diante do futebol que o time apresentou no primeiro semestre e das perspectivas para o próximo, a única chance de conseguirmos chegar à Libertadores 2013 ou, mais ainda, de quebrar o incômodo jejum de quase 4 anos sem levantar um caneco. Por isso, Luís Fabiano, Lucas e cia. jogam a partir de amanhã, de algum modo (isto é, se nada for feito para mudar o elenco, ampliá-lo etc.) , a sorte do SPFC neste ano e no próximo. É esperar e confiar. E hoje, para aquecer, ficar de olho num possível rival da tão aguardada final.

Vamos São Paulo!

domingo, 3 de junho de 2012

Legião Urbana - Tempo Perdido

Vivendo uma semana de homenagens aos 30 anos da Legião Urbana, não poderia deixar de dar minha contribuição. Digam o que disserem, a Legião foi, ou melhor, é uma das maiores bandas do rock nacional - se não for a maior. Para minha geração, Renato Russo é um ícone, e suas letras ecoam até os dias de hoje, com uma atualidade impressionante (infelizmente, às vezes). E essa, na minha opinião, é uma de suas melhores composições, aqui em ótima versão ao vivo, em 1994.


 

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Elementos da teoria da alienação em Marx

O conceito central da teoria marxiana, a alienação ou estranhamento (Entfremdung), origina-se na esfera da produção e reprodução da vida material, isto é, no domínio do trabalho, da práxis. Define Marx em O capital: “Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza”. 

Hegel já havia observado que o trabalho determina a “essência” do homem. Ocorre que, segundo Marx, o autor da Fenomenologia do espírito compartilha o ponto de vista da economia política clássica, e ao ver no trabalho apenas a realização da essência humana, apreende exclusivamente seu aspecto positivo. Mas, a essa concepção ideal, é preciso acrescentar que o trabalho contemporâneo também é produtor de riqueza. Há, com efeito, um lado negativo deste trabalho, justamente o trabalho assalariado do proletário, que não realiza sua “essência”, mas, pelo contrário, submetido às exigências e preso às amarras do capital, torna-se trabalho alienado, estranhado. Nos Manuscritos econômico-filosóficos, Marx distinguia, contra Hegel, o trabalho enquanto realização objetiva (Vergegenständlichung) e como exteriorização alienada (entfremdete Entäusserung). Essa distinção é fundamental, porque ela nos permite compreender o surgimento do que István Mészáros denominou “mediações de segunda ordem”. Tais mediações, indo além do processo mediador necessário que nossa práxis estabelece com seu entorno material (como explicitado na definição marxiana de trabalho), erguem-se entre o homem e a natureza, criando mediações artificiais (históricas) que, a partir da existência da propriedade privada, resultam numa sociedade alienada, dividida em classes e, portanto, impossibilitada de satisfazer plenamente as necessidades de seus membros. Nesse sentido, explica Mészáros: “O ideal de uma ‘transcendência positiva’ da alienação é formulado como uma superação sócio-histórica necessária das ‘mediações’: propriedade privada – intercâmbio – divisão do trabalho que se interpõem entre o homem e sua atividade e o impedem de se realizar em seu trabalho, no exercício de suas capacidades produtivas (criativas), e na apropriação humana dos produtos de sua atividade. A crítica que Marx faz da alienação é, portanto, formulada como uma rejeição dessas mediações. (...). O que Marx combate como alienação não é a mediação em geral, mas uma série de mediações de segunda ordem (propriedade privada – intercâmbio – divisão do trabalho), uma ‘mediação da mediação’, isto é, uma mediação historicamente específica da automediação ontologicamente fundamental do homem com a natureza”.

Historicamente, complementa o filósofo húngaro, a auto-alienação do trabalho assume uma forma primeiramente política: surgiu da forma de apropriação do excedente agrícola. Posteriormente, o desenvolvimento da esfera da produção (possibilitada por esse próprio movimento alienante), possibilitou um princípio econômico de apropriação e distribuição (desigual) de riqueza que, no capitalismo, se generalizou para todos os domínios da vida social (e mesmo privada), fazendo com que os seres humanos definitivamente não se reconheçam mais no mundo que eles mesmos criaram – e, portanto, assumindo-o como “natural”, se sintam incapazes de mudá-lo. Mas, porque a auto-alienação do trabalho foi, antes de tudo, uma “escolha” historicamente necessária para o desenvolvimento da produção material humana, agora, por conta do alto desenvolvimento dessa mesma atividade produtiva, ela poderia ser superada em nome da recuperação do caráter positivo do trabalho – entendido como meio de “humanização” do homem, de libertação de suas potencialidades e realização de sua liberdade –, e da satisfação plena de nossas necessidades. Para isso, porém, seria necessário superar o quadro no qual a alienação toma forma, aquele das mediações de segunda ordem, isto é, o modo de produção capitalista que as engendra. Novamente, trata-se de uma decisão política.

Referências bibliográficas:

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Trad. Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004.
__________. O Capital – crítica da economia política. Livro Primeiro. Volume I. In: Col. Os Economistas. Trad. Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. 3ª edição. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1988.
MÉSZÁROS, István. A teoria da alienação em Marx. Trad. Isa Tavares. São Paulo: Boitempo, 2006.