quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Que venha 2011!

E 2010, como diziam os mais antigos (me incluo nessa), já foi pro beleléu. Depois da nostalgia que sempre toma conta de mim no período natalino, agora é hora de fazer um breve balanço do ano que acaba. Talvez esse post, sendo exclusivamente pessoal, não interesse a muita gente (ou a nignuém! rsrs), mas de qualquer forma...vamos lá!

Este ano, pessoalmente, foi marcado por altos e baixos, como vocês verão. Meu problema crônico de respiração melhorou consideravelmente (embora não de todo, pois deveria ter voltado mais uma vez ao médico) após um tratamento eficiente no meio do ano. Pode parecer bobagem, mas só quem perdeu muitas noites de sono por causa disso sabe o que é. E, ainda no quesito "saúde", continuei minha vida de atleta amador, caminhando e correndo e seguindo a canção rsrs. Este ano fui, com a Angelica, padrinho de casamento do meu primo. Experiência inédita. Além disso, foram duas viagens, digamos, "prá valer". Uma em outubro, para Águas de Lindoia, para participar do encontro nacional da pós em filosofia. A primeira, exclusivamente a passeio, foi no carnaval, com a Angelica (e amigos), quando voltei à praia depois de quase dois anos, o que é sempre prazeroso - ainda mais quando se acabou de escrever a dissertação, e se está naquela expectativa pela defesa. De fato, o primeiro grande (e inesquecível) momento de 2010, para mim, foi receber o título de mestre, e, em seguida, iniciar o doutorado. Contudo, para ser sincero com vocês, confesso que nem sempre consigo entender o real significado, nem o efetivo alcance desses feitos. Às vezes, parece que apenas estou fazendo uma outra graduação rsrs. Como já disse em outra oportunidade, não me soa ainda muito natural dizer que sou mestre em seja lá o que for (de bom). Tampouco que faço um doutorado. Tá que isso, no fundo, são apenas títulos, ser "mestre" ou "doutor" em algo vai muito além desses diplomas, mas não deixa de ser engraçado, quando tenho que dizer o que faço para alguém, sentir que a pessoa me olha meio ressabiada, sabe, como se estivesse pensando "Doutorado, você? nessa idade? com essa cara? Sei...". Além disso, neste ano comecei, também, uma nova graduação, à distância (em filosofia, como minha pós), o que foi motivo de certa desconfiança para mim, no começo. Sabe como é, curso não presencial, faculdade privada, católica etc. Agora me sinto mais adaptado, mais motivado, embora sempre que estou sem grana (isto é, todo final de mês) pense que poderia usar o dinheiro da mensalidade em outras coisas.

Uma das melhores lembranças que tenho deste ano, foi que, no primeiro semestre, a Angelica fazia aulas de inglês às segundas e quartas à tarde. Às quartas eu também tinha aula, e ao sair da universidade, ia me encontrar com ela, basicamente para jogar conversa fora antes que a aula dela começasse. Talvez um fato como esse seja um mero detalhe, mas como acredito que a felicidade está nos detalhes...

Um dos grandes problemas de 2010, para mim, foi ter ficado vários meses sem renda, já que minha bolsa de doutorado só começou em setembro. Além de dar uma desanimada (costumo dizer que “entrei” mesmo no doutorado quando recebi a primeira parcela da bolsa), isso me acarretou alguns problemas financeiros significativos (por exemplo, acabou com uma pequena poupança que tinha conseguido ao longo do mestrado) que ainda se fazem sentir. Para piorar, a Angelica (será que ela vai ficar brava de também ser lembrada assim? rsrs) atravessava uma fase difícil “existencialmente” falando – mas que finalmente parece ter terminado com o novo emprego dela – e, sem poder fazer muita coisa, me sentia ainda pior. De fato, nunca é bom ver alguém que a gente ama passando por maus momentos, principalmente quando não temos muitos meios para ajudar. Por sorte, isso em nada interferiu no nosso relacionamento. Ou melhor, só ajudou a fortalecê-lo. Mas, retornando, ao problema anterior, quando, enfim, voltei a ter renda, e as coisas pareciam voltar aos trilhos, uma série de probleminhas indesejáveis acabou por estragar um pouco meu final de ano. Mas, bola pra frente.

Quer dizer, "bola" não. Em termos futebolísticos, 2010 foi uma desgraça para mim. O São Paulo mal das pernas como há muito não se via, com raríssimos momentos de inspiração (eu me lembro de três jogos decentes em todo o ano!). A Copa do Mundo, bem, vocês sabem como foi (prá mim, só valeu pelo fato de colecionar mais um álbum de figurinhas! rsrs)... só mesmo o inesquecível “centernada” do Corinthians, com a precoce eliminação na Libertadores, e a crise sem fim do Palmeiras para fazerem a gente rir um pouco.

Mas o fato que “salvou” o ano, em termos gerais, foi mesmo a política. Aliás, dando uma olhada no arquivo do blog, percebi que, depois da eleição da Dilma, não havia mais tocado nesse assunto diretamente. Pois bem, acho que é um bom momento. Se, por um lado, é preciso admitir o fato de que não ter mais o Lula como presidente a partir de 1º de janeiro será estranhíssimo, e poderia ser um motivo concreto de preocupação, por outro, os primeiros passos da nova presidenta me deixaram otimistas, pois confesso que estava temeroso em relação à escolha dos novos ministros. Para o bem de todos, e felicidade geral da nação, Dilma não se rendeu à pressão dos “aliados”, e compôs um ministério, no geral, comprometido com uma linha progressista e desenvolvimentista, voltada para o bem-estar social. Claro, eu mudaria um nome aqui, outro acolá, mas, no geral, foram boas escolhas, o que abre uma ótima perspectiva para o país no(s) próximo(s) ano(s).

Finalmente, como não poderia deixar passar, 2010 foi o ano que comecei esse blog, desejo já antigo que eu finalmente consegui realizar. Os muitos elogios recebidos até aqui, em número muito maior do que eu poderia imaginar em tão curto tempo, e ainda por cima vindo por leitores de todo tipo, isto é, que visitam esse espaço com interesses diversos, me deixaram muitíssimo feliz. Isso para não falar do número sempre crescente de visitas. A todos vocês, meu muito obrigado! E espero, de verdade, que no ano que vem o blog possa melhorar ainda mais. Com efeito, são apenas seis meses escrevendo aqui, e ainda tenho muito que aprender sobre essa nova ferramenta de comunicação, bem como, e acima de tudo, sobre esse troço meio enigmático, mas definitivamente maravilhoso, que é a nossa própria vida. Afinal, é disso que o blog trata...

Bom, para não cansá-los ainda mais, encerro com o meu mote nessa época do ano. Não importando o que aconteceu até aqui, desejo para todo mundo que 2011 seja, em todos os sentidos, melhor do que 2010! Um grande abraço e bom ano a tod@s!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

John Lennon - Happy Xmas (War Is Over)

Para celebrar a semana de Natal, bem como o ano novo que se aproxima, e relembrando que no último dia 08 de dezembro completaram-se 30 anos do assassinato de John Lennon, deixo vocês com um clássico do ex-beatle, que virou um verdadeiro hino de final de ano. Um hino à paz, à solidariedade, ao respeito ao próximo, e à esperança num futuro melhor para todos, no melhor estilo de John. Merry Xmas everyone and happy new year!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Parabéns, São Paulo!


"Salve o tricolor paulista, amado clube brasileiro, tu és forte, tu és grande, dentre os grandes, és o primeiro!"

Hoje, 16 de dezembro, é dia de festa no futebol! O clube mais vencedor do Brasil, aquele que soma 6 títulos brasileiros, 3 taças Libertadores da América, 3 Mundiais de clubes, dentre outros títulos de menor expressão, completa 75 anos de uma gloriosa história!

Torcedores, jogadores, dirigentes: parabéns a todos aqueles que, ao longo desses anos, fizeram e fazem do SPFC o maior clube do país. Dono de um dos maiores estádios particulares do mundo, de uma história repleta de grandes ídolos e de grandes feitos, o São Paulo tem currículo e estrutura de fazer inveja a qualquer outro clube do mundo. Isso para não dizer que, ao contrário de alguns rivais, não temos em nossa história humilhações tais como rebaixamentos, eliminações bizarras, envolvimento com atividades ilícitas etc. Enfim, são 75 anos de orgulho para todos os seus torcedores. Parabéns São Paulo! Longa vida ao Tricolor Paulista!

Alguns ídolos da história do clube: Leônidas da Silva, Zizinho, Canhoteiro, Gérson, Pedro Rocha, Serginho Chulapa, Careca, Müller, Raí e Rogério Ceni.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Socialismo e democracia

Fui militante de uma corrente interna do PT, trotskysta radical (O Trabalho), durante três anos, entre 2004-2007. Saí basicamente por divergências políticas. Desde então, minha vida sofreu grandes transformações. Quando militava, era estudante de Ciências Sociais. Formei-me, fui trabalhar, saí, comecei e concluí meu mestrado, agora em filosofia, e, neste momento, já estou terminando o primeiro ano de doutorado, também em filosofia. Mas, de lá para cá, houve uma coisa que não mudou: minha posição política socialista.

Continuei no PT e participei de campanhas vitoriosas, em 2008 e 2010. Mas, desde que deixei a militância trotskysta, sentia que precisava pensar um pouco mais sobre o que eu entendia por socialismo. Se eu não acreditava mais dogmaticamente no Programa de transição socialista de Trotsky, como eu concebia essa passagem? Como seria, por conseguinte, o socialismo que eu almejava? Essas dúvidas, somadas a questionamentos sobre minha própria vida e experiência, me exigiam alguma reflexão mais demorada.

No entanto, passada aquela fase de fastio, vinda logo após eu abandonar o trotskysmo, somada ao trabalho que ocupava boa parte do meu dia, e depois, por conta das obrigações acadêmicas do mestrado, essa reflexão sempre era adiada. Este ano, porém, por força da minha pesquisa de doutorado, que entre outras coisas tratará do rico debate de Sartre com o marxismo, fui reler Marx. A riquíssima teoria do filósofo, que eu não lia desde minha graduação, somada ao processo eleitoral, que sempre acirra os ânimos e a disposição ao debate político, fizeram-me despertar novamente a necessidade de “colocar no papel” algumas ideias minhas. Peguei o material que tinha, adquiri outros e, em conjunto com minhas próprias percepções e vivências pessoais, voilà: consegui sistematizar minimamente algumas de minhas concepções políticas atuais. E decidi publicá-las aqui no blog, na forma de um artigo. É uma contribuição pequena para um debate que, espero, seja cada vez mais amplo, e que para mim mesmo está longe de esgotar: a relação entre socialismo e democracia, e a possibilidade de retomarmos em nosso horizonte, a utopia socialista para este século.

Por se tratar de um artigo, resolvi não postá-lo aqui, mas sim um link para quem quiser fazer o download. Espero, com isso, dar minha parcela de ajuda para reacender a discussão sobre o socialismo, não apenas no âmbito da Internet, mas também com militantes do PT, da esquerda, e com todos aqueles que, enfim, acreditam em um mundo mais justo e solidário. Isso, num contexto em que teremos, mais uma vez, um governo de perfil democrático-popular. Sem me alongar mais, convido todos à leitura do texto. Fiquem à vontade para dar suas opiniões, tecer críticas e comentários, sempre de maneira respeitosa, como é a política deste blog. Abraços!


Resumo do artigo: O objetivo é trazer alguns elementos para a reflexão acerca das possibilidades de retomada do ideal socialista neste século XXI. Num primeiro momento, delinearemos nossa compreensão do socialismo, bem como o meio através do qual cremos ser possível retomá-lo num horizonte próximo: uma revolução democrática que, radicalizando a democracia para além dos parâmetros liberais, permita a constituição de uma hegemonia socialista no interior da sociedade civil e do Estado. Ao final, indicaremos alguns aspectos do papel que, a nosso ver, o PT, enquanto maior partido de esquerda da América Latina, deve desempenhar neste processo.

Download do texto completo aqui.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Iluminado (The Shining)

Na próxima segunda, tenho prova de francês. Informação irrelevante para um blog, certo? Também acho. Só estou dizendo isso porque, por uma espécie de coincidência do destino, as provas de francês têm me lembrado muito um filme que vi, indicado pela Angelica, e que, apesar de não ser do meu gênero preferido, realmente me arrebatou: O Iluminado, do diretor Stanley Kubrick (responsável por alguns filmes absolutamente revolucionários, como Laranja mecânica e 2001: uma odisséia no espaço). Mas, qual a relação do filme com provas de francês? Vou explicar.

Quem já fez algum curso de idiomas nessas escolas privadas, sabe que, ao final de cada semestre, se faz uma prova com o conteúdo visto e, invariavelmete, há uma redação e uma parte oral, tipo uma entrevista , a simulação de uma situação cotidiana, ou algo assim. Pois bem, nas últimas duas provas de francês que fiz, em julho deste ano e em dezembro do ano passado, contei a história de O Iluminado. No final do ano passado, havia entre as possibilidades de redação, expor a história de um filme(sabe aquele negócio de treinar tempos verbais? Pois é...). Como as outras opções pareciam fora do alcance do meu francês, resolvi escolher essa mesmo. Sou péssimo em guardar enredo de filmes, mas decidi arriscar, pois havia visto o filme há pouco, e lá fui eu narrar a saga de Jack Nicholson, no filme cujo enredo baseia-se na obra homônima do mestre dos livros de terror Stephen King. No semestre passado, na prova oral, havia novamente a opção de contar um filme. Não tive dúvidas. Contei novamente a mesma história (o professor era outro, claro). O curioso é que, nas duas vezes, eu errei vários detalhes da trama, como o maldito número do quarto proibido, entre outros. Para minha sorte, as provas eram de francês, não de cinema. 

Bem, de qualquer forma, já estou me preparando novamente. Se pintar a oportunidade, lá vou eu na segunda-feira, mais uma vez, narrar a história de O Iluminado (desta vez, espero, sem erros). É, definitivamente, minha muleta nas provas de francês rsrs. Bom, mas até lá, é melhor curtir um pouco do trailer. E, se você não viu o filme, vá correndo ver. Mesmo que não seja muito fã de terror/thriller/suspense, como eu, tenho certeza de que vai gostar.


***

O Iluminado (The Shining)

Ano: 1980
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Baseado na obra de Stephen King
Gênero: Terror/suspense
Origem: Estados Unidos
Duração: 144 minutos
Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Loyd.

Sinopse: Durante o inverno, Jack Torrence (Jack Nicholson) é contratado para ficar como vigia em um hotel no Colorado e vai para lá com a mulher (Shelley Duvall) e seu filho (Danny Lloyd). Porém, o completo isolamento começa a lhe causar problemas mentais sérios fazendo com que Jack torne-se cada vez mais agressivo e perigoso. Ao mesmo tempo, seu filho, dotado de uma inteligência acima do comum, passa a ter visões de acontecimentos ocorridos no passado do hotel, que também foram causados pelo excessivo isolamento dos antigos vigias. Destaque para as visões do filho de Jack das duas gêmeas mortas no corredor, enquanto ele pedalava seu triciclo. Aliás, as pedaladas do garoto pelos corredores do hotel foram homenageadas na abertura do desenho O fantástico mundo de Bobby, que passava no programa da Mara Maravilha no início dos anos 90 (quem tem uns 20 e poucos anos certamente vai se lembrar).

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O São Paulo em 2010: um ano para não ser esquecido

2010 acabou para o São Paulo faz tempo. Mais precisamente, na última derrota para o Corinthians, que sepultou nossas chances de ir à oitava Libertadores seguida. 2011 será, de fato, um ano atípico. Não participaremos da maior competição continental, voltaremos a disputar a Copa do Brasil e a Copa Sul-americana. Me parece claro que o foco do SPFC no próximo ano deve se concentrar nessas duas competições que, além do título, darão vagas, por um caminho mais simples que o Brasileirão, para a Libertadores 2012.

Mais à frente, quando o campeonato acabar, e as especulações sobre reforços ganharem força, pretendo fazer um balanço deste ano do São Paulo. Desde já, porém, já adianto minha opinião sobre a questão central: 2010 deve ser tomado como um ano de profundas lições. A maior delas, para nossa diretoria (lembrando que, em abril, tem eleições no clube): este ano, repetindo 2009, mas com um final pior. Em 2010, se superaram, foi uma trapalhada atrás da outra: desde reforços bisonhos, equívoco na manutenção de Ricardo Gomes por um período muito maior do que deveria, novo equívoco na escolha de Sérgio Baresi, para não falar da costumeira prepotência. Que esse ano sirva para o SPFC, sobretudo que o comanda, voltar a ter os pés no chão. É preciso deixar de acreditar que o clube é uma estrutura que funciona por si só. Não! Apenas com um planejamento sério, somado a uma boa dose de ousadia, que poderemos disputar títulos. Essa, aliás, foi a fórmula que deu certo no SPFC, antes da inércia arrogante que tomou conta do clube nos últimos dois anos, pelo menos.

Enfim, torço para que o ano de 2010 não seja esquecido. Está claro, para mim, que apenas meditando sobre suas importantes lições, poderemos ver o SPFC ter mais uma década vitoriosa como foi a última. Espero que nossa diretoria pense o mesmo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A solidão desse rosto

Bom, por conta da minha falta de assunto, ou, quem sabe, da pura incapacidade de escrever algo melhor, resolvi postar um poema meu. No caso, o primeiro que tive a oportunidade de publicar, em 2006, numa coletânea que homenageava os 10 anos do Departamento de Letras da UFSCar. Aliás, a publicação dele veio em ótima hora, para levantar o moral mesmo. Espero que gostem!




A solidão desse rosto

 I


A solidão desse rosto,
estampada no selo dos teus olhos,
devora toda a luz do dia que se finda
e aguarda a noite muda para sua consagração

Encerras medo e euforia
nos movimentos desconexos conduzidos por teus membros
                                               frágeis
                                               morenos
                                               delgados

Perdeste o tino:
ganharás um sopro de brisa que virá repousar
em teus lábios
                                   semi-abertos.


II


Segue,
que teu passado
       teu presente
       teu futuro
convergem singulares no leito aberto desse rio
conjugado em sonhos pueris

Desce,
junto à correnteza que te aguarda
pela manhã
e pega carona no barco desgovernado
que te orientará o
                              peito ferido.



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Paul McCartney - No more lonely nights

Em homenagem ao ex-beatle - ou melhor, ao eterno beatle - Paul McCartney, que essa semana faz shows no Brasil (e que, lamentavelmente, não poderei ver), trago para vocês o clipe de uma de minhas músicas preferidas desse que é, sem dúvida, um dos maiores compositores e um dos mais completos artistas de todos os tempos.  Escolhi essa canção, não apenas porque a acho belíssima, mas também porque No more lonely nights é uma música especial para mim: ouvi-a, pela primeira vez, no rádio do carro, numa daquelas noites de profunda tristeza, incertezas e solidão, e a verdade é que ela me ajudou muito naquele momento, deu uma força mesmo. Curioso é que, pouco tempo depois, conheci a Angelica, e realmente, não houve mais "noites solitárias" como aquela!

Enfim, com vocês, Sir Paul McCartney, com No more lonely nights.



domingo, 31 de outubro de 2010

Dilma Rousseff, presidente do Brasil!

O Brasil vai seguir mudando! Esse é o recado que saiu das urnas neste 31 de outubro de 2010. Confirmando a tendência das pesquisas, a mineira Dilma Rousseff, do PT, foi eleita neste domingo a primeira mulher presidente do Brasil. Com quase 56 milhões de votos, 56,05% do total, a candidata petista derrotou o tucano José Serra, que ficou com menos de 44 milhões de votos, 43,95% do total.

Este blog, que apoiou desde o início a candidatura da companheira Dilma, tem muito orgulho de, neste dia 31 (data particularmente especial para o signatário destas linhas), poder saudar mais uma vitória presidencial do PT e escrever um post com o título: “Dilma Rousseff, presidente do Brasil”. Em breve, tentarei escrever um pouco mais sobre o significado dessa vitória, bem como sobre os rumos do futuro governo. Mas agora, mais do que nunca, é hora de dizer com muito  orgulho: boa sorte, presidente Dilma, estamos com você! Viva o povo brasileiro!

*Leia, aqui, os 13 eixos do programa de governo de Dilma Rousseff.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Um pouco da história do Halloween

O próximo domingo, 31/10, é um dia muito especial. para mim. Não apenas por conta das eleições, mas porque comemoro mais um ano de vida (25). E como vocês devem saber, também é Dia das Bruxas ou, mais precisamente, Halloween. Por isso, numa espécie de auto-homenagem, resolvi escrever um pouco sobre essa data, bastante festejada em países anglo-saxões, e que, pouco a pouco, vem ganhando espaço também em outros países, como o Brasil (aqui, creio eu que graças, sobretudo, à influência cada vez mais sentida das escolas de inglês). Como vocês irão notar, a festa tem muito pouco ou nada a ver com bruxas propriamente ditas, embora se trate de uma celebração de procedência místico-religiosa.

O Halloween tem sua origem num ritual dos druidas, sacerdotes (e também mestres e juízes) dos celtas, povo que habitava a região norte da Europa (atual Grã-Bretanha) desde o ano 200 a.C. aproximadamente. Na tradição celta, entre os dias 30 de outubro e 02 de novembro (do nosso calendário, claro) era comemorado o Samhain (pronuncia-se sow-in). O festival de Samhain (em gaélico, literalmente, “fim do verão”) celebrava o final da “metade mais clara” e início da “metade mais escura” do ano (isto é, o fim do verão e o início do inverno), marcando o início do ano novo celta. Era um momento de culto aos mortos e um agradecimento pelo ano que acabava. Durante o festival, a rígida estrutura social celta era quebrada, e as pessoas poderiam fazer coisas que normalmente eram inaceitáveis por aquela sociedade. Uma prática comum nesses dias era a adivinhação, que muitas vezes envolvia o uso de alimentos e bebidas.

Na noite do dia 31, acreditavam os celtas, as leis de espaço e tempo eram suspensas, a fronteira entre este mundo e o outro (dos mortos e dos espíritos) se tornava mais estreita, permitindo que forças sobrenaturais, fantasmas e espíritos vagassem livremente por aqui. Dizia-se que os espíritos dos mortos voltavam nessa data para visitar seus antigos lares e guiar os seus familiares rumo ao outro mundo.

Por isso, os celtas ofereciam a esses espíritos sacrifícios de animais, e colocavam alimentos nas portas de suas casas, com o intuito de agradá-los, bem como para impedir que espíritos nocivos interferissem em suas vidas, seja levando-os, a contragosto, para o outro mundo, seja prejudicando o sucesso das colheitas do ano seguinte. Além disso, vestiam trajes e máscaras especiais para afugentar tais espíritos malignos.

As fogueiras desempenhavam um papel essencial nas festividades. Grandes fogueiras, simulando o sol, eram acesas nos vilarejos pelos druidas, (inclsuive os ossos dos animais abatidos para o culto aos mortos eram lançados em suas chamas) com o intuito de obter bençãos dos deuses no próximo ano, bem como sucesso nas colheitas. Com efeito, o Samhain era também o tempo de fazer o balanço das entregas de alimentos e animais de abate para os estoques de suprimentos que garantiriam a sobrevivência durante o inverno, bem como para discutir assuntos importantes concernentes ao povoado, em temas como justiça e política.

A festa continuou a ser celebrada depois da conquista romana dos antigos territórios celtas. Já o nome Halloween, ao que tudo indica, deriva do inglês antigo. A primeira aparição dessa expressão se dá no século 16 e representa uma contração errônea de All Hallows-Eve, isto é, a véspera do Dia de Todos os Santos (All Hallows Day). Esta data foi instituída pelo Papa Bonifácio IV, e era celebrada no dia 13 de maio. Porém, em 835 o Papa Gregório III alterou o Dia de Todos os Santos para o primeiro dia de novembro, visando unir as crenças cristãs e pagãs, aproximando as datas comemorativas, bem como apaziguar os conflitos entre esses povos. Assim, os cristãos celebravam o dia dos santos falecidos no dia posterior ao rito pagão. Desta forma, a expressão Halloween tornou-se sinônimo da celebração pagã de 31 de outubro. A incorporação da figura das bruxas à data deu-se muito depois, durante a Inquisição Católica, no final da Idade Média. Nessa época, os suspeitos de não compartilhar a fé cristã eram considerados bruxos ou bruxas, e queimados em grandes fogueiras, que lembravam aquelas do antigo ritual celta.

Já no século XIX, a festividade foi levada aos Estados Unidos por imigrantes irlandeses, onde se popularizou enormemente, ganhando ares mais leves, diferentes dos originais, concentrando-se mais na parte festiva (por exemplo, com o famoso Trick-or-treat? das crianças, e com as fantasias de monstros e bruxas).

A referência simbólica mais famosa ao Halloween são as famosas abóboras recortadas iluminadas, com aparências demoníacas. Elas se chamam Jack-o-Lantern. Sua origem é encontrada no folclore irlandês (mesma região dos antigos celtas). Reza a lenda que um homem chamado Jack, notório beberrão e trapaceiro, esculpiu uma cruz no tronco de uma árvore, prendendo o diabo em cima dela. Depois disso, Jack firmou um trato com o Diabo: se ele nunca o atormentasse, Jack apagaria a cruz do tronco e o deixaria descer da árvore. Depois que Jack morreu, sua entrada no Céu foi recusada devido ao seu pacto com o Diabo. No inferno, também não foi aceito, devido a suas trapaças. Porém, o Diabo concedeu a Jack uma única vela para iluminar seus caminhos. Sua chama teria que ser preservada eternamente, então Jack a colocou dentro de um nabo oco, e esculpiu alguns furos para dar passagem à luz emitida pela chama.

Originalmente, portanto, as "Lanternas de Jack" eram feitas com nabos. Mas quando os imigrantes irlandeses chegaram aos Estados Unidos, em 1840, encontraram as abóboras que são muito mais adequadas. Assim, a abóbora tornou-se o principal símbolo contemporâneo do Halloween.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Marilena Chauí explica porque votar Dilma e não Serra

De maneira simples, mas brilhante, como é seu usual, a filósofa e professora da USP Marilena Chauí explica, nestes quatro pequenos vídeos abaixo, porque votar em Dilma e não em Serra no próximo dia 31 de outubro. Em sua análise, Marilena concentra-se, sobretudo, em expor a ameaça que uma eventual vitória tucana representará para a democracia, os direitos e os avanços sociais e ambientais conquistados ao longo do governo Lula.









sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O Poderoso Chefão - parte I (The Godfather - part I)

Caros vistantes, confesso que ando meio sem tempo de escrever no blog com mais assiduidade e com mais profundidade. Vários compromissos, sobretudo acadêmicos, acabaram por fazer minhas últimas semanas mais corridas que o habitual, fato que deverá se repetir nas próximas.

Gostaria de falar um pouco sobre o que anda ocorrendo na campanha presidencial, do absurdo a que se chegou na questão do aborto (em que se confunde religião e saúde pública, opiniões e crenças pessoais com deveres do Estado) e como, com ela, o candidato tucano busca fugir do debate de projetos para o país (talvez, porque, como eu já disse aqui em outras oportunidades, ele não tenha um), fazendo uma campanha que só ajuda a fomentar a intolerância, o ódio e o preconceito, além de despolitizá-la completamente.

Mas, por enquanto, não escreverei nada específico a respeito. Talvez na próxima semana, se houver tempo e eu tiver cabeça. Por enquanto, deixo vocês com imagens de meu filme preferido: "O poderoso chefão - parte I". Quem não viu, deve ir correndo ver. O filme é brilhante em vários aspectos: enredo (baseado no romance homônimo de Mário Puzo), direção, (Francis Ford Coppola) atuação (Marlon Brando e Al Pacino se superam), trilha sonora (tanto a música tema, que toca no vídeo abaixo, quanto o "love theme" , ambas escritas por Nino Rota, são espetaculares), fotografia, etc. Enfim, na minha opinião (ainda que seja uma opinião de quem, na verdade, não entende quase nada de cinema! rsrs) é um dos melhroes filmes de todos os tempos. Divirtam-se!

***

O Poderoso Chefão - parte I (The Godfather - part I)

Ano: 1972
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo
Gênero: Drama/Policial
Origem: Estados Unidos
Duração: 175 minutos
Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, Robert Duvall, James Caan, Diane Keaton.

Sinopse: Nova Iorque, 1946. Don Corleone (Marlon Brando) é o chefe de uma  das famílias mafiosas italianas mais poderosas da cidade. Tem o costume de "apadrinhar" várias pessoas, realizando importantes favores para elas (daí o nome original do filme, The godfather, em inglês, "O padrinho"), em troca de favores futuros. O comércio da máfia restringia-se, à época, a produtos  "inofensivos" como bebidas alcoólicas. Com a chegada das drogas, as diversas famílias começam uma disputa pelo novo e promissor. mercado Quando Corleone se recusa a corroborar com a entrada dos narcóticos na cidade, não oferecendo a ajuda política e policial de que dispõe, sua família começa a sofrer atentados para que mudem de posição. É nesse cenário que seu filho Michael (Al Pacino), um herói de guerra que jamais havia se interessado pelos negócios da família, vê a necessidade de proteger o seu pai e tudo o que ele construiu ao longo dos anos. 



sábado, 9 de outubro de 2010

A vez de Carpegiani

No último domingo, enquanto o Brasil votava, e decidia por levar Dilma e Serra para o segundo turno, o São Paulo anunciava a volta de Paulo César Carpegiani ao comando técnico da equipe. De cara, não me empolguei. Carpegiani nunca foi um técnico de ponta. Não sei se é um técnico à altura do clube que dirige mais uma vez. A primeira passagem, em 1999, não deixou saudades. E, em outros grandes times, também não emplacou. Seus grandes trabalhos foram em 1981, campeão mundial ainda muito jovem com o Flamengo, e em 1998, quando dirigiu o Paraguai na Copa da França. Mas, de qualquer forma, é preferível em relação a Baresi. Além disso, não se pode negar que o treinador vinha fazendo um grande trabalho à frente do Atlético Paranaense. Vamos ver se sua boa fase se confirma. Claro que, para isso, ele precisará contar com o apoio da diretoria, sobretudo no que diz respeito a trazer reforços para a equipe que, independentemente do treinador, tem muitas (e algumas graves) carências.

Por enquanto, pouco tenho a dizer sobre o novo técnico do São Paulo. Nesse momento, o que todo são-paulino pode fazer é apenas desejar-lhe boa sorte. E torcer para que ele faça do SPFC um clube novamente vitorioso. Ou que, ao menos, faça com que ao o time entre em campo tal postura, o que há tempos não ocorre nos lados do Morumbi.


domingo, 3 de outubro de 2010

Derrotar a direita!

Nesta segunda-feira, 04/10, parto logo cedo para o XIV Encontro da ANPOF (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia), que será realizado em Águas de Lindoia-SP. Até lá, meu acesso à internet ficará restrito. Por isso, escrevo esse post agora, comentando rapidamente, ainda no calor dos acontecimentos, alguns fatos das eleições deste domingo.

Em primeiro lugar, lamento profundamente a opção dos eleitores de SP por optarem pela continuidade do governo tucano no estado. Só temos a perder com mais 4 anos de aprovação automática nas escolas, pedágios elevados, descaso com a área social, baixos salários aos servidores, etc. Mas, enfim, Alckmim foi eleito. Nada mais a fazer, senão fiscalizar seu governo e cobrar.

Quanto a Tiririca, e seus 1 milhão e 300 mil votos, nada a dizer, só mesmo a lamentar.

E, no que diz respeito ao cenário nacional, ficou provado que a onda de ataques a Dilma, sobretudo via internet, surtiu efeito, revertendo muitos de seus votos para Marina. Ainda assim, o cenário continua animador para a petista que, no segundo turno, além de manter seu eleitorado, deverá conseguir aproximandamente 4% dos votos depositados na candidata do PV para se eleger. Tarefa mais fácil, matematicamente pelo menos, do que a do tucano José Serra.

Contudo, não devemos ter dúvidas de que, fortalecidos, após ressucitarem uma candidatura praticamente morta, PSDB, DEM e seus tradicionais aliados (com apoio inclusive de uma fatia importante do PV) virão com tudo para cima de Dilma e do PT. Portanto, mais do que nunca, a palavra de ordem, já a partir dessa segunda-feira, deverá ser: voto Dilma para derrotar a direita conservadora e retrógrada!


domingo, 26 de setembro de 2010

A mídia e o terrorismo político

Estamos nos últimos dias de campanha. Momento decisivo, em que se jogam as últimas cartadas, se apresentam as últimas propostas, se tenta convencer a parcela do eleitorado que ainda está indecisa. Mas, no caso específico dessas eleições, algo tem chamado a atenção já algum tempo: é que há quase 1 mês, qualquer possibilidade de discutir minimamente alguma proposta para o país foi soterrada. Vendo como quase irreversível a consolidação da liderança de Dilma Rousseff, com uma probabilíssima vitória já no primeiro turno, a oposição e sua milícia midiática decidiram apelar para o terrorismo político, com o intuito de levar o tucano José Serra para o segundo turno, ou, ao menos, criar um clima de instabilidade no país que prejudique a governabilidade de Dilma, caso seja mesmo eleita.

Isso não começou agora. Desde antes das eleições são feitas críticas infundadas e algumas preconceituosas a respeito de Dilma (críticas que vão de sua aparência, suposta opção sexual, ao seu passado, sua formação acadêmica, etc.). O emblema dessa fase, para mim, é aquela capa da Época com a foto da candidata quando jovem e a manchete “O passado de Dilma”. Sem projeto, e sem poder se contrapor ao crescimento da candidatura petista, os pára-jornalistas da direita começaram a agir por outra via. Começou a série de denúncias contra a então ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra. O objetivo, claro, não era apurar as irregularidades envolvendo a máquina pública (o que deve sempre ser feito). O objetivo era “provar” que o PT e Dilma tinham envolvimento em tais casos de corrupção. Parecia um tiro certeiro, mas, como dizem por aí, o tiro saiu pela culatra: cada nova denúncia, acompanhada da impossibilidade de ligar Dilma e seu partido aos escândalos (afinal, é um tanto difícil provar o que não houve) aumentava as intenções de voto na candidata do governo, e consolidavam a possibilidade de sua vitória no primeiro turno. Mais ainda: segundo as pesquisas estaduais, desenhava-se um cenário (que deve ser confirmado no próximo domingo) no qual o PT e partidos aliados cresceriam consideravelmente, tanto na Câmara quanto no Senado, e no qual a oposição perderia ainda mais sua força (há algum tempo fala-se abertamente, por exemplo, na possibilidade de extinção do DEM).

Aí, o pessoal enlouqueceu de vez. Para a direita e a grande imprensa (até mais do que para alguns setores moderados da oposição, que, literalmente, já desistiram de Serra), é inadmissível uma terceira vitória petista, com ampla maioria de parlamentares pró-governo. Para eles, é um risco. Lula, sabendo do que esperava Dilma e o PT na reta final da campanha, anunciou numa frase simples e certeira: “no Brasil, a [grande] imprensa funciona como um partido político”. É o que o Paulo Henrique Amorim chamou de P.I.G. (Partido da Imprensa Golpista). A constatação do presidente acabou servindo de mote para a apelação derradeira da oposição: se Dilma ganhar, o Brasil caminhará para uma ditadura civil. A partir daí, começou um vale-tudo. Terrorismo político. Vídeos apelativos anônimos, corrente de e-mails e toda uma sorte de bravatas. Neste final de semana, o jornal O Estado de São Paulo declarou que apóia José Serra (leia o editorial do Estadão aqui) defendendo-o como o candidato que melhor reuniria as condições de “evitar um grande mal para o país”. O mal, para o jornal, é a continuidade do poder nas mãos do PT (tratado pelo jornal, vejam só, como uma “facção” que “submete os interesses coletivos aos seus”). Já na semana passada, um grupo de personalidades e intelectuais da direita brasileira lançou um manifesto contra o PT, “em defesa da democracia e da liberdade". A Veja dedica há algumas semanas suas matérias de capa para achincalhar Dilma e o PT. A dessa semana, como não poderia deixar de ser, faz coro à “grande ameaça” de um novo governo petista e traz a manchete: “Liberdade sob ataque”. A Folha de São Paulo, tentando cinicamente demonstrar imparcialidade – e para não ficar atrás do concorrente – também dedicou seu editorial de domingo a “advertir” aqueles que atacam o “jornalismo livre” de que haverá volta.

O que está por trás de toda essa verborragia é o medo: medo de que, com mais um governo do PT, o poder oligárquico que controla a grande imprensa continue sofrendo abalos. Menos de 1 dúzia de famílias controlam quase todo o acesso a informação que temos no país. Televisões, rádios, jornais, revistas, tudo se concentra na mão de um punhado de mentes que decidem o que podemos ou que não podemos saber, e como podemos saber. Por isso, não admitem qualquer intervenção pública em sua atividade. Qualquer forma, mínima que seja, de controle social. Não admitem democratizar o acesso à informação, o estímulo a mídias alternativas, a existência de redes de TV públicas, etc. Não admitem, vejam só, que o Estado ou a sociedade civil possam dizer seus programas de televisão são de péssima qualidade. Ou que distorcem as notícias a seu bel-prazer. Ou que têm opção político-ideológica bem definida. Que detestam um governo que popular. Não. Eles querem o controle total para falar e fazerem o que bem entenderem. É que na democracia da milícia midiática, só eles têm direito à voz. Só eles têm a informação. O povão que ouça, veja, leia e, sobretudo, aceite, afinal, pensam essas pessoas, pobre é ignorante mesmo. Apóiam um metalúrgico sem diploma na presidência, não é? Por isso, para não terem seu poder ameaçado, toda tentativa de controle e supervisão de seu serviço deve ser classificada como “atitude ditatorial”, “atentado à liberdade de expressão”. E todo governo popular, que ameace o poder da grande mídia, que tente dar ao povo o direito de produzir e acessar informação e cultura por meios alternativos, que diga claramente quais os interesses dessa gente, deve ser denunciado como “ditatorial”. É a lógica terrorista. “Se Dilma ganhar, o Brasil se transformará numa ditadura”. Ditadura, para eles, é quando o governo passa por cima dos interesses deles para atender o povo. Ou quando um governo, bem aprovado, faz por via eleitoral seu sucessor. E quando o partido desse governo tem maioria eleita no Congresso. Mas, como disse o Lula esses dias, “democracia não é ter direito a falar que está com fome; é ter comida no prato”. É isso que eles não admitem. Hoje é comida, amanhã é uma faculdade e depois? Vão querer pensar por conta própria? Governar sem nós? Eles têm medo. E jogam com o terrorismo político para evitar perderem seus tronos. Mas essa lógica falhará novamente. O golpe da mídia fracassará. Porque o povo sabe qual governo será melhor para ele. E milícia midiática, bem, essa vai ter que nos engolir. Pela terceira vez.



terça-feira, 21 de setembro de 2010

Marx e o caráter fetichista da mercadoria

Por força da minha pesquisa de doutorado, precisei reler Marx mais atentamente no último período, fato que se repetirá, provavelmente, ao longo dos próximos anos. Talvez empolgado com o que li (na verdade, com o que reli), decidi escrever um pouco a respeito de um dos pontos mais brilhantes da análise de Marx sobre o capitalismo (ou, para ser mais exato, do “modo de produção capitalista”): o exame do que o filósofo chama de caráter fetichista da mercadoria. Não é só brilhante porque desvenda um dos “segredos” do nosso sistema sócio-econômico, mas por conta de sua impressionante atualidade, da forma como nos ajuda a compreender alguns aspectos de nossa vida. Vou tentar, de maneira resumida, expor essa parte da teoria marxista.

Para Marx, a riqueza das sociedades capitalistas aparece como “uma imensa coleção de mercadorias”. Por isso, sua analise se inicia com elas. Mercadoria, para Marx, é toda coisa externa que, por suas propriedades, é capaz de satisfazer as necessidades humanas. Além disso, a mercadoria encerra outra dimensão fundamental: ela é produto de trabalho humano. Toda mercadoria apresenta um valor de uso, isto é, aquilo para o qual está destinada, e um valor de troca, ou simplesmente valor. A diferença entre uma roupa costurada por uma mãe para seu filho, e uma que compramos na loja não está em seu valor de uso, mas no seu valor de troca. A primeira não é uma mercadoria; a segunda é. É que, ao entrar na esfera da circulação e da troca, a mercadoria perde suas características essenciais (que determinam seu valor de uso) e transformam-se em equivalentes objetivos de outras mercadorias. Ela passa a ter um valor de troca. Esse valor é, no fundo, a medida objetiva da quantidade de trabalho utilizada na produção da mercadoria. É através dela que se pode trocar mercadorias distintas ou, mais precisamente, quantidades de trabalhos sociais distintos. O que dá valor a uma mercadoria é, portanto, o trabalho vivo empregado em sua fabricação.

No modo de produção capitalista, a propriedade privada dos meios de produção (matérias-primas, fábricas, máquinas, etc.) cria um cenário no qual trabalho e produto do trabalho separam-se radicalmente. O trabalhador não se reconhece no que produz, uma vez que o resultado de sua produção – que, por direito, deveria ser seu – é apropriado por outrem (o dono do capital). Uma das consequências é que aquilo que ele produz, convertido em mercadoria, apresenta-se a ele, no mercado, como algo autônomo, dotado de qualidades especiais, “sobrenaturais”, como se tivesse surgido não por conta de seu trabalho, mas em um passe de mágica. Esse é o caráter fetichista da mercadoria. A separação entre produtor e produto de seu trabalho faz com que a mercadoria esconda o seu fundamento, isto é, o fato de ser “trabalho humano cristalizado”. Com efeito, quando compramos algo, nada mais estamos comprando do que o produto do trabalho de outras pessoas. Estamos travando uma relação social. “O misterioso da forma mercadoria consiste, portanto, simplesmente no fato de que ela reflete aos homens as características sociais do seu próprio trabalho como características objetivas dos próprios produtos de trabalho, como propriedades naturais sociais dessas coisas e, por isso, também reflete a relação social existente fora deles, entre objetos”. Quer dizer, a mercadoria não é nada mais do que “determinada relação social entre os próprios homens que para eles aqui assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas”. Os homens relacionam-se com o que produzem de maneira reificada, coisificada, por conta do caráter social peculiar do trabalho que produz mercadorias. Vejamos.

O caráter social dos diversos trabalhos particulares só se manifesta pela troca: cada produtor (o capitalista) produz para o mercado, em busca de algo com o qual possa trocar seu produto. Ou seja, quando produz mercadorias para satisfazer as necessidades dos outros, ele visa satisfazer, antes de tudo, as suas próprias necessidades. É o entrelaçamento de todos os produtores que configura o caráter social da produção. No mercado é organizada e articulada a divisão do trabalho, e o conjunto dos produtores (no qual cada um busca trocar seu produto por outro) realiza uma cooperação espontânea. Vou tentar dar um exemplo bastante simplificado. Imaginem um produtor de ferro. Suponhamos que ele precise, digamos, de 10 novas peças de roupas e 02 novos pares de sapato para uso pessoal. Para consegui-los, ele vende seu produto no mercado e, em troca, adquire aqueles que desejava. Até aqui, nada de novo; este é o fundamento de toda troca. Mas, vale destacar, ao mesmo tempo em que produz o ferro para poder adquirir outras mercadorias para si mesmo, ele produziu o ferro que entrará na fabricação das máquinas de outros produtores, responsáveis pela fabricação das roupas e dos calçados que ele irá comprar. E estes outros produtores, ao venderem seus produtos para o primeiro produtor, procurarão o produto de outros produtores e assim por diante. As necessidades particulares são satisfeitas por essa larga cooperação.

Ocorre que, no capitalismo, tal divisão não é visível, porquanto não há essa relação direta com outrem. Ela se dá pela intermediação de um equivalente geral, capaz de medir “objetivamente” o valor de todos os trabalhos particulares (como dito acima, seu valor de troca): o dinheiro. Se o produtor de ferro, no exemplo acima, se encontrasse diretamente com o produtor de roupas, o caráter essencial da troca se manteria. Eles trocariam x de ferro por y de roupas. Mas, a partir do momento em que essa troca é feita com um intermediário, as relações sociais por detrás da produção das mercadorias ficam oculta. Daí as trocas aparecerem como relação entre coisas, fetichistas, e não como relações sociais de homens que intercambiam o produto de seu trabalho. O valor da mercadoria dissimula a realidade das relações inter-humanas envolvidas na fabricação das mercadorias, substituindo-as por um equivalente ideal, imperceptível.

Como se pode supor, no capitalismo, a divisão do trabalho e da produção, mencionada acima, é levada ao seu grau máximo de socialização. A divisão é, mais do que nunca, operada em níveis globais. Essa divisão mundial do trabalho torna-se, com efeito, a principal força produtiva (na medida em que potencializa o trabalho vivo dos homens, a força produtiva original) e ganha a forma da concorrência, isto é, de “guerra de todos contra todos”, como diz Denis Collin, retomando a antiga fórmula do filósofo Thomas Hobbes. No fundo, é o capital que entra em conflito consigo mesmo. Mas, no que mais interessa ao nosso ponto, é fácil deduzir que, quanto maior a extensão da divisão internacional do trabalho, mais oculto o caráter das relações sociais por detrás das mercadorias, e, consequentemente, maior seu caráter fetichista. De fato, desde um pacote de arroz no supermercado, uma roupa, um brinquedo, até um carro, ou uma casa: tudo que é vendido no mercado, sob forma de mercadoria, encerra relações sociais, é fruto de trabalho humano. Mas, cada vez mais, as mercadorias parecem ter “vida própria”, dotadas de poderes fantásticos que, quando adquiridas, passariam para as mãos daqueles que as compram. A lógica aqui, para Marx, é a mesma da religião, na qual os deuses, criados pelos homens, com propriedades, características e sentimentos humanos, passam a dominá-los, como se tivessem uma existência autônoma. Um dos efeitos do caráter fetichista da mercadoria – e que sustenta a atualidade da análise marxiana – é explorado pela publicidade e pela propaganda, que investem pesado no aspecto sobrenatural da mercadoria. Grande parte da lógica de estimular o consumo é, exatamente, persuadir o consumidor de que, ao adquirir determinada mercadoria, ele será “especial”, “mais feliz”, “conquistará mais pessoas”, etc. Como se, por um feitiço, ele fosse capaz de incorporar as “propriedades mágicas” do que está comprando. E como se essas propriedades decorressem da própria natureza da mercadoria. O que fica camuflado, é que as mercadorias que compramos não estão desvinculadas de relações sociais. Quer dizer, elas são relações sociais cristalizadas. É o mesmo trabalho humano que as produz. É ele (e não alguma propriedade fantástica, sobre-humana) que faz a mercadoria ter propriamente um valor, porque o trabalho modifica a natureza, criando algo capaz de satisfazer nossas necessidades.

Porém, fica para uma outra oportunidade analisar mais detidamente o caráter desse trabalho. Sabemos, por exemplo, que o dono de uma indústria não produz diretamente (ou individualmente). Ele tem sob sua tutela uma série de pessoas contratadas para realizarem o produto final de sua empresa e, por conseguinte, dar a ele o que Marx chama de mais-valia (grosso modo, aquilo que proporcionará a ele o lucro). E isso nos coloca uma infinidade de questões. Por exemplo, e no que é um dos traços marcantes do capitalismo, o próprio trabalho humano (convertido em trabalho assalariado), aquele que produz as mercadorias, será transformado, também ele, em uma mercadoria – logo, capaz de ser mensurada objetivamente por seu valor de troca. A conclusão a que se chega daí é muito simples, embora profunda: no modo de produção capitalista, o trabalhador perde seu estatuto de humanidade, tornando-se “coisa”, um produto comprado e vendido no mercado. E “a vida mesma”, diz Marx, resumida à mera luta pela sobrevivência, perde toda sua dignidade, e “aparece só como meio de vida”.

Para quem se interessar pelo tema:

MARX, Karl. O capital. Vol. I, Cap. I (há várias edições em português).

Uma boa introdução ao pensamento de Marx é:

COLLIN, Denis. Compreender Marx (Ed. Vozes).


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Elton John - Sacrifice

Gostaria de compartilhar com vocês uma música, de que gosto bastante, e que me traz ótimas recordações. É curioso como essas coisas acontecem (pelo menos, comigo acontecem): há várias músicas que poderiam servir de trilha de  alguns momentos da minha vida, embora, aparentemente, isso tenha pouca ou nenhuma relação com o que elas dizem em suas letras. É o caso de "Sacrifice", de "Sir" Elton John. Era o final do ano de 2007. Eu trabalhava na prefeitura desde maio, namorava a Angelica há uns três meses, estava prestando o exame para entrar no mestrado na UFSCar e iria me mudar de casa. Apesar dessa ser a quarta moradia de minha vida, era a primeira vez que eu, digamos assim, "curtia" a mudança. Antes, tinha morado 17 dos meus então 22 anos na mesma residência. Eu estava super empolgado com a situação: final de ano (que eu gosto bastante), comprando coisas novas (de guarda-roupas e rack para computador até dezenas de cabides de roupa! rsrs), e, certo dia, vendo um DVD do Elton John, essa música, sei lá, me tocou. Como vocês poderão ver, ela nada tem a ver com a situação descrita. Trata-se de uma balada romântica, um tanto triste. Mas, como eu disse, isso não teve muita importância no caso, e ela acabou marcando um importante momento de transição da minha vida. Por isso, deixo vocês com ela, numa versão ao vivo, apenas com Elton no piano. Até a próxima!




PS: podem me chamar de brega, mas, apesar de gostar muito de rock and roll, eu também gosto de alguns artistas pop, como o Elton John! rsrs

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Por que votar em Dilma?

Há algumas semanas, escrevi um texto, com o título “Por que votar Mercadante?” (leia aqui). É hora de escrever algo na mesma linha, agora sobre a disputa à Presidência da República.

Essas eleições presidenciais desenvolvem-se num importante momento da história brasileira. Apenas agora, mais de 20 anos depois das primeiras eleições da chamada “Nova República” (período posterior ao fim da ditadura militar), temos definidos dois grandes projetos para o país: um representado pelo PT e pelas forças democrático-populares, e o outro pelo PSDB, pelo DEM e pelas forças conservadoras. Talvez por isso, porque, diferentemente de democracias mais antigas, somente agora tivemos, de fato, a primeira experiência de ver no poder dois governos com visões e prioridades bem distintas para o país, poderemos escolher, de maneira mais consistente e embasada, uma ou outra forma de governar. Nesse sentido, gostaria de fazer algumas observações.


O mundo, hoje, clama por mudanças em todas as esferas da vida social. E, diante da miséria e do desastre ambiental em que vivemos globalmente, me parece haver apenas um sentido seguro em que a humanidade pode caminhar: o estabelecimento de novas relações do homem com a natureza e entre si, isto é, novas “relações de produção e reprodução de nossa existência”, para usar a célebre fórmula de Marx. Do meu ponto de vista, isso significa: estamos todos no mesmo planeta, compartilhamos a mesma terra, temos necessidades básicas semelhantes, que devem ser atendidas socialmente por nosso trabalho coletivo, respeitando-se as diferenças individuais, sobre a base de nossa igualdade. Por isso, é sempre preciso lembrar: se o sistema social atual não consegue satisfazer nossas necessidades elementares (nossas, sito é, de todos), o problema não está em nós, mas no sistema. Modificá-lo para que possa atender nossas demandas, a meu ver, deve ser o mote de toda política progressista.

Mas, com efeito, para que seja possível caminhar em outra direção, é fundamental, dentre outras coisas, que os responsáveis pelo Estado (em nível nacional e global) também pensem e ajam com esse propósito, sobre a base transformadora que pode garantir tanto o nosso futuro como o de nosso planeta. Isso implica, por exemplo, uma nova lógica na condução do Estado. E, para mim, esse foi, justamente, um dos grandes méritos do governo Lula: inverter (para melhor, do ponto de vista da maioria) o sentido das políticas públicas brasileiras, que desde sempre visaram atender os itneresses de uma minoria. É fato que o que foi feito ainda foi pouco perto das necessidades que temos. Mas, paradoxalmente, “nunca antes na história deste país” tanto havia sido feito. Principalmente para os mais necessitados. Isso dá a exata dimensão do drama de nossa situação, resultado da mentalidade e do descaso promovido por tantos governos anteriores. Mas, felizmente, começamos a reverter esse quadro. O Estado começa a servir os interesses da maioria da população que, por sua vez, começa a se sentir parte ativa, sujeitos da história.

Há algumas décadas (o que inclui, naturalmente, essas eleições), só há um projeto no Brasil que, conquanto mais timidamente do que eu gostaria e do que acho possível, se desenvolveu e se desenvolve sobre essa linha transformadora: é o projeto político encabeçado pelo Partido dos Trabalhadores – hoje, em nível nacional, representado pela candidatura de Dilma Rousseff à presidência.

Por isso, gostaria de chamar a atenção para o que está verdadeiramente em jogo nessas eleições: a possibilidade de continuarmos fazendo do Brasil um país melhor  para todos nós, trabalhadores, estudantes, homens e mulheres, um país que tire definitivamente todos os seus habitantes da pobreza e da miséria, e que possa dar condições de vida digna a todos, ou voltarmos a ser um país que prioriza apenas aquela pequena parcela da população que desde sempre foi privilegiada. Com efeito, já vimos para onde cada projeto pode levar o país. Quem sai ganhando com uma ou outra forma de governar, com um ou outro modelo de condução das políticas públicas, da economia, do meio-ambiente, das relações internacionais. Cabe a nós escolhermos. Como eu disse acima, só vejo uma via na qual o Brasil pode se engajar rumo a um futuro melhor para todos. É este o caminho no qual já estamos, e que temos a obrigação de aprofundar. E, para isso, é imprescindível o voto em Dilma-13 nas eleições de 03 de outubro.

* PT elabora cartilha de realizações do Governo Lula: clique aqui para ler a matéria no site do partido ou aqui para baixar o arquivo diretamente (aprox. 19.3Mb)


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Filho único

Deixo vocês com um poema autobiográfico, que escrevi há alguns anos, chamado "Filho único". Em parte, ele foi inspirado na música homônima do grande Cazuza. Daí, talvez, uma visão um pouco mais negativa desse fato do que a que tenho hoje.

Muitos acham que ser filho único é uma benção. Não ter que brigar por espaço com irmãos, por atenção dos pais, etc. Outros, que todo filho único, justamente por isso, é mimado, ou egoísta por natureza. Eu acho que já experimentei um pouco dos dois lados. Já vivi o melhor e o pior dessa situação. Mas, sicnceramente, não tenho opinião formada sobre as vantagens e as desvantagens disso. Na verdade, acho que não há fórmula pronta. Por exemplo, há muita gente egocêntrica e indfiividualista que tem uma penca de irmãos. Outros, filhos únicos, que são extremamente generosos e solidários. A única coisa que posso afirmar é que ser a única criança da família foi importantíssimo para ser quem sou hoje. Para o bem e para o mal rsrs.


Filho único

Eu acredito em gigantes
escondidos em moinhos flutuantes
sou filho único, infeliz,

que não se cansa em repetir
o roteiro pecado de um anjo caído
escrito a álcool em fresco verniz

(Jovem socialista, maldito
brasileiro, assisto todos os dias
os capítulos do nosso sacrifício)

Sou filho único, egoísta,
que conta milhares de mentiras
e foge correndo da luz do sol...

Eu acredito em fantasmas
deixando suas covas rasas
e dormindo debaixo do meu lençol.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

"Eu só quero sossego". Será?

Todo mundo já experimentou essa sensação: torcemos para que logo cheguem nossas férias, ou um período de descanso prolongado, e entrar naquela rotina da música do Tim Maia (“O que eu quero? Sossego!”), mas, bastam alguns dias em casa, e já não aguentamos mais “ficar sem fazer nada” e vamos atrás de algo que nos ocupe (confesso a vocês que, em parte, foi isso que me fez criar esse blog, durante minhas férias). Mas, pouco tempo depois, lá estamos nós lamentando o fato de não termos descansado o suficiente. Essa busca incessante por algo a fazer, por um objetivo, está relacionada diretamente à nossa incompletude: o homem é um ser incompleto. De uma forma ou de outra, vários filósofos já abordaram esse tema. Perseguimos um fim impossível, nunca nos sentimos plenamente realizados, a existência nada mais sendo, afinal, que esse movimento de busca, que só cessa com a morte. Igualmente, muitos filósofos trataram da dificuldade que temos em conviver com essa lacuna, com essa carência. Ora tentamos preenchê-la, ora buscamos meios de nos esquecermos dela. Vejam Pascal, por exemplo.

Para este filósofo, há uma “infelicidade natural de nossa condição fraca e mortal”. Não suportamos a experiência de ficarmos quietos num canto. É que, quando isso acontece, começamos a pensar em nós mesmos, em nossa situação – o que nos entedia, nos angustia, nos mostra o quão fracos somos. Por isso, criamos formas de evitar esse contato íntimo e acabar com o tédio. Por exemplo, pelas ocupações que nos impomos, ou pelo divertimento. Diz o filósofo: “Sobrecarregamos os homens, desde a infância, com o cuidado de sua honra, de sua riqueza, de seus amigos, e ainda com o cuidado da riqueza e da honra desses amigos. Cansamos os homens com negócios, com o estudo de línguas e exercícios, e fazemos, e fazemos com que sintam não poder ser felizes sem que sua saúde, honra e fortuna, e as de seus amigos, estejam em ordem, e que basta faltar uma dessas coisas para que se tornem infelizes. E lhes impomos encargos e negócios que os atormentam desde que o dia amanhece. Aí está, direis, uma estranha maneira de torna-los felizes! Que haveria de melhor para torna-los infelizes? – Como! Que haveria de melhor? Bastaria tirar-lhes todas essas ocupações; então se veriam a si mesmos, pensariam no que são, de onde vêm e para onde vão. Nunca será demais, assim, ocupa-los, nem jamais os distrairemos muito. E é por isso que, depois de sobrecarregá-los de negócios, caso ainda lhes sobre tempo para o descanso, nós os aconselharemos a empregá-lo em divertimentos e no jogo, e a permanecer, sempre, totalmente ocupados”.

Notem a sagacidade de Pascal. No fundo, isso não se passa conosco também? Não sei se esse blog é fruto de uma tentativa de me afastar da apreensão de minha condição humana. Mas, de qualquer maneira, é fato que inquietamo-nos quando não temos o que fazer, quando não temos metas a cumprir, quando não temos planos. Somos, com efeito, seres sempre lançados para frente, sempre precisamos inventar algo, traçar metas, bolar ocupações e distrações. Mas, diferente da visão pascaliana, vejo nisso um aspecto extremamente positivo: é justamente por estarmos sempre insatisfeitos, que podemos avançar, progredir, criar coisas novas, criar o mundo, bem como nossa própria existência.

Para Pascal, essa insuficiência, que jamais se esgota, porquanto é impossível alterarmos a natureza humana (apenas Deus poderia fazê-lo) acomete a todos. “Faça-se a experiência: deixe-se um rei sozinho refletir com serenidade em si, sem nenhuma satisfação dos sentidos, sem nenhum cuidado no espírito, sem companhia, e ver-se-á que um rei sem divertimento é um homem cheio de miséria”.

De fato, assim como não vivemos sem apontar para o futuro, também não vivemos sem diversão, sem algo que nos entretenha, que nos faça, inclusive, esquecer, ainda que momentaneamente, alguns de nossos problemas (até mesmo aquele que considero o maior de todos para um homem, a saber, conseguir dar sentido à sua própria existência). Pascal, porém, é um pouco mais ácido quanto a este fato: “Esse homem tão abatido com a morte de sua mulher e de seu único filho e sujeito ao tormento de tão grande dor, por que não está triste neste instante, e o vemos tão desprovido de tais pensamentos dolorosos e inquietantes? Não há porque estranhar: acabam de entregar-lhe uma bola e cabe-lhe atirá-la a seu companheiro, e ei-lo a pega-la de modo a marcar um ponto. Como pretendeis que medite sobre seus tormentos quando tão nobre assunto o preocupa”?

Pascal, adepto do jansenismo (uma das tendências do cristianismo de sua época), via na apreensão de nossa miséria o caminho para atingirmos a redenção e a salvação divinas. Boa parte de sua obra é uma apologia da religião cristã. Mas, sem entrar nesse terreno (ou justamente por isso), não creio, ao contrário de Pascal, que essa espécie de fuga seja necessariamente negativa, indigna do homem. Quer dizer, dentro de certos limites, acredito se tratar de uma dimensão necessária de nossa vida. É uma das saídas que temos para suportar o peso de nossa existência, de nossa responsabilidade. Também é preciso se divertir! O problema está, a meu ver, quando esse tipo de “alienação provisória” transforma-se em um estado quase permanente. Enfrentamos esse problema atualmente: o capitalismo tenta transformar a imperiosa necessidade do divertimento – e, por conseguinte, aquilo que nos traz divertimento – em mecanismo de alienação e controle social (vejam, por exemplo, que a maioria dos jogos, dos programas de TV, etc. são voltados às classes mais populares). No fundo, temos uma reedição bem mais sofisticada do velho “pão e circo” romano.

No entanto, este último tópico mereceria uma análise um pouco mais aprofundada. Mas, se me permitem, isso fica para outra oportunidade. Now, it´s time to have some fun! rsrs

Para quem se interessar no tema:

PASCAL, B. Pensamentos (várias edições), sobretudo os seguintes fragmentos (numeração da edição estabelecida por Brunschivicg, que está, por exemplo, na coleção Os pensadores): 135, 139, 140, 142, 143, 146, 164, 171.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Juvenal, o aristocrata decadente, e os rumos do São Paulo

Bem, após a saída de Ricardo Gomes, decidi esperar um pouco para falar sobre a situação do São Paulo, interinamente comandado por Sérgio Baresi. É que, após a eliminação da Libertadores, escrevi um post, “A hora da reformulação” (leia aqui), em que expunha meu ponto de vista: Ricardo, fraco treinador que era, deveria sair. Não só ele, porém; as mudanças não poderiam parar por aí. Mas pararam. E pararam porque a atual diretoria do SPFC também parou: parou no tempo. Deitou-se nos louros conquistados em seu primeiro mandato (o tri-brasileiro) e acreditou que apenas isso bastaria para fazer o São Paulo, como num passe de mágica, continuar vencendo. Não aconteceu. E se nada for feito, a vergonha passada ontem diante do Corinthians tende a se repetir.

Há tempos, o time apresenta um futebol sofrível. Mesmo quando, no ano passado, disputava até a última rodada mais um título nacional; ou este ano, no momento em que chegava a uma improvável semifinal continental. Os problemas são crônicos, e se repetem. No início da década, quando se começou a desenhar o SPFC vitorioso do período 2005-2008, a grande sacada da diretoria, comandada pelo saudoso Marcelo Portugal Gouvêa, tinha sido compreender como ninguém as mudanças no futebol brasileiro ocasionadas pelo fim da “lei do passe”. Some-se a isso, o igual entendimento em como montar um elenco capaz de disputar um longo campeonato por pontos corridos, na época, ainda novidade no Brasil. Mas o tempo passou, e a verdade é que outros clubes começaram a aprender, inclusive com o exemplo dado pelo próprio São Paulo. E, o que era nosso diferencial, passou a ser um predicado comum a outras agremiações. Vide o caso do Internacional, por exemplo.

Hoje, o São Paulo nada tem de diferenciado. Quer dizer, tem sim: o discurso. Mas, como futebol não se ganha com palavras, temos visto o clube sofrer em praticamente todos os jogos que disputa. A culpa? A maior parcela, sem dúvida, é de Juvenal Juvêncio e companhia. São eles que, após a saída de Danilo, em 2006, não foram capazes de trazer um meia armador decente para o time. Quer dizer, nem um meia armador decente, nem um mais ou menos. Foram eles que demitiram Muricy no meio do campeonato do ano passado e, querendo mostrar que não são iguais aos demais, resolveram trazer um técnico sem a menor capacidade de dirigir um clube do tamanho do SPFC. Foram eles que, agora, demitiram Ricardo Gomes e, sem qualquer planejamento, efetivaram Sérgio Baresi no cargo, alguém visivelmente despreparado para comandar um clube deste tamanho. Foram eles quem trouxeram Carlinhos Paraíba, Cléber Santana, Renato Silva, André Luís, Fábio Santos, Carlos Alberto, Wagner Diniz, Éder, Joílson, e tantos outros jogadores sem qualquer condição de vestir a camisa tricolor – e, insisto, nenhum meiazinho sequer. É deles a maior parcela de culpa pelo péssimo momento do time. Ah, você pode dizer, mas eles também foram responsáveis pelo inédito tricampeonato brasileiro. Verdade. O problema é que JJ parou na conquista de 2008. Não viu (ou não quis ver) que a roda da história continuou girando. Que os outros clubes se renovaram. E que não bastaria apenas autoproclamar-se “diferenciado” para que as coisas acontecessem. O São Paulo hoje (isto é, sua diretoria, a começar pelo coronel Juvenal),  parece aquele aristocrata decadente que, reivindicando um passado de glórias, continua agindo sob a chancela de sua pretensa e intacta superioridade. Só não percebe que o faz da mesma sarjeta em que foi jogado junto com todos os outros. Alguns clubes entenderam a situação e começaram a agir. O São Paulo se acomodou. Por isso, é preciso renovar. É preciso respirar novos ares. Sob pena de acordar tarde demais – e de maneira muito trágica – do sonho de que o tempo parou naquele gol de Borges contra o Goiás.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

1 mês de blog

Bem, este blog completou um mês de existência nesta semana. E, acreditem, levar a frente este espaço tem sido uma experiência muito enriquecedora. Para quem, como eu, escolheu uma carreira na qual escrever bem (tanto no sentido formal quanto no de conteúdo) é fundamental, este blog tem sido um ótimo aprendizado. Não só porque me possibilita expor ideias, reflexões, críticas, dúvidas e sentimentos de maneira mais livre e espontânea, quanto também por ter o feedback de vocês, que pacientemente se dispõem a ler o que escrevo, o que é essencial para qualquer escritor. Para terem uma ideia, no período em que este blog está no ar, foram mais de 300 visitas (sendo mais de 200 visitantes) e quase 1000 visualizações de páginas. Números que honestamente me surpreenderam. Mas não fico só na frieza dos números. A recepção à proposta do blog também tem sido excelente: e-mails, comentários, conversas, twitter...Queria, de coração, agradecer a todos que passaram por aqui, que elogiaram, fizeram observações e críticas, e que ajudaram a divulgar este espaço.

A todos vocês, obrigado pelo apoio!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O amor e a filosofia

Hoje, Angelica e eu completamos três anos juntos. Em homenagem a essa data tão especial, segue um texto falando um pouquinho sobre o amor de uma perspectiva filosófica. Dedico a ela este post. Afinal, foi quem me fez descobrir  o verdadeiro sentido do amor.



“O amor é quando a gente mora um no outro”
Mário Quintana


Amor...quão nobre sentimento, tão indefinível, tão contraditório, tão essencial! E como não poderia deixar de ser, muitas são as visões sobre o amor que perpassam a história da Filosofia. A primeira grande abordagem do tema foi realizada por Platão, no seu célebre diálogo O banquete. O filósofo define o amor como um princípio cósmico, uma escada com sete degraus, que vão do amor por uma pessoa, passando pelo amor por todas as formas belas, ao amor pelas práticas belas, até o amor pelas realidades superiores do universo, isto é, o amor pela Beleza em si.

Através da personagem de Sócrates, um dos convidados do banquete, Platão diz o seguinte: “O que deseja, deseja aquilo que lhe falta, (...) e se não sentir falta, não sente também desejo”. Isto é, só desejamos (e amamos) aquilo que não temos. Embora o objeto do amor esteja sempre ausente, ele sempre é solicitado. O amor é sempre relativo a algo, nunca é absoluto. Sendo o Amor, amor daquilo que nos falta, ele não é nem belo nem bom, visto que o Amor, para Platão, sempre aspira ao Belo e ao Bem.

A seguir, Sócrates narra a seguinte história, que lhe foi contada pela sacerdotisa Diotima de Mantinéia, sobre a origem de Eros (o Amor). Ela diz que Eros é um intermediário entre o humano e o divino. Ele é o responsável por fazer os homens se comunicarem com os deuses e vice-versa. É uma espécie de mensageiro, nascido da união de Engenho e Pobreza. A história é a seguinte: “Quando Afrodite nasceu, os deuses reuniram-se num festim onde, entre vários outros, se encontrava o Engenho, filho da Sabedoria. Depois de jantarem, eis que aparece a Pobreza a mendigar os restos – como é usual em ocasiões de festa... – e ali ficou, junto à porta. Entretanto o Engenho, já embriagado de néctar, foi para o jardim de Zeus, e tão pesado se sentia, que adormeceu. Então a Pobreza, que na sua natural indigência meditava ter um filho do Engenho, deitou-se junto dele e assim concebeu o Amor. Eis a razão porque o Amor nos surge como companheiro e servidor de Afrodite: concebido nas festas em honra do seu nascimento, é, por natureza, um apaixonado do Belo, pois que Afrodite é bela. Por outro lado, a condição de filho do Engenho e da Pobreza ditou-lhe o seu destino. Condenado a uma perpétua indigência, está longe do requinte e da beleza que a maior parte das pessoas nele imagina... Rude, miserável, descalço e sem morada, estirado sempre por terra e sem nada que o cubra, é assim que dorme, ao relento, nos vãos das portas e dos caminhos: a natureza que herdou de sua mãe faz dele um inseparável companheiro da indigência. Do lado do pai, porém, o mesmo espírito ardiloso em busca do que é belo e bom, a mesma coragem, persistência e ousadia que fazem dele o caçador temível, sempre ocupado em tecer qualquer armadilha; sedento de saber e inventivo, passa a vida inteira a filosofar, este hábil feiticeiro, mago e também sofista [aqui, no sentido de sábio – V.S.]”.

Estátua de Eros, o deus do amor na mitologia grega
Há, em Platão, uma importante distinção entre um amor “egoísta”, que persegue o outro como um objeto a devorar (quando “o amante ama o amado como o lobo ama o cordeiro”, nas palavras de Platão) e o amor verdadeiro, que é capaz de nos conduzir à posse eterna do Belo e do Bem. Este último amor, para o filósofo grego, concorre com o desejo de imortalidade do homem. Segundo Platão, todo homem tem o desejo de ser imortal. E, para tanto, utiliza-se de meios variados, como a realização de obras que ficarão para a posteridade, ou a procriação, isto é, a tentativa de prolongar a existência através da pessoa amada.

A tradição filosófica seguirá, em linhas gerais, a oposição entre o amor e o egoísmo, ou entre um amor-ativo (altruísta) e um amor-passional (egoísta). Darei apenas dois exemplos.

No século XVII, Espinosa, filósofo racionalista, determinará que a maior virtude do homem é o desejo de conservar-se em seu ser, isto é, de conservar sua existência. Nesse sentido, define a alegria como o sentimento que temos de que nossa capacidade de existir aumentou. E o amor é quando atribuímos esse aumento a uma causa externa, isto é, ao objeto do nosso desejo, à pessoa amada. Quer dizer, o amor é o afeto da alegria, como percepção da ampliação de nossa força para ser, agir e viver ativamente. Contudo, ressalva Espinosa, por se tratar de uma inevitável paixão, há sempre o risco de nos tornarmos servos dela. Daí que, para o filósofo, é necessário que o poder da razão possa, refletindo sobre as causas reais e o sentido verdadeiro de nossa vida afetiva, impedir que sejamos dominados por paixões incontroláveis. Apenas assim, teremos nossa alma livre e, por conseguinte, perceberemos que nossa força para existir e agir aumenta quando existimos e agimos com outrem. Igualmente, estaremos aptos a buscar a felicidade suprema, qual seja, nos sentirmos partes integrantes e ativas da Natureza infinita.

Por outro lado, Sartre afirma que, não obstante ser possível amar de várias maneiras, a principal forma de amor (ao menos atualmente) é aquela que ele define na expressão “amar é querer ser amado”. Para o filósofo, isto ocorre quando o amante deseja ser o “mundo inteiro” do amado, ocupar toda sua vida, ser o motivo de sua existência. Esse tipo de amor, naturalmente, está fadado ao fracasso, porque invade completamente a liberdade do outro (é o amor que visa os interesses de apenas um dos amantes).

Com efeito, e sem querer me prolongar em demasia, o fato é que há muito o que se discutir sobre o amor. Ainda mais nesse “tempo de homens partidos”, como dizia Drummond. Aqui, trouxe, muito superficialmente, o que alguns filósofos pensaram sobre o amor. Há muito mais a ser explorado. Vale notar, por exemplo, que, não obstante associarmos frequentemente o amor ao amor entre duas pessoas, há, claro, outros objetos importantes de amor (por exemplo, a própria Filosofia nasce como “amor ao saber”). Quem sabe, dê para retomar o tema em outra oportunidade. Por enquanto, há algumas considerações pessoais que gostaria de compartilhar com vocês.

O romancista francês Antoine de Saint-Exaupéry disse que “amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção”. Concordo. O amor é quando nos sentimos, parafraseando Mario Quintana, morando no outro. Não de maneira evasiva, ou porque nós assim exigimos (como no caso mais comum descrito por Sartre), mas de maneira solidária, cúmplice, porque partilha do desejo do outro. Não há amor sem cumplicidade. O próprio Sartre entendia que o amor autêntico requer, como condição dessa cumplicidade, a inexistência de segredos entre os amantes – o que implica em aceitar, reciprocamente, a liberdade do outro, sem, ao mesmo tempo, deixar-se dominar por ela. Claro, isso não é tarefa fácil. Ainda mais porque vivemos em uma época na qual, desde cedo, somos ensinados a colocar nossos interesses, nossos desejos e nossas ambições acima de tudo. Mas, creio que seja preciso sempre caminhar na direção contrária. Somos seres humanos, partilhamos um mesmo mundo, e precisamos de outras pessoas, precisamos estar com elas, precisamos sentir aquela alegria que só temos quando vemos que a(s) pessoa(s) que amamos também está(ão) feliz(es). Por isso, acho que, em uma sociedade como a nossa, amar é uma verdadeira resistência. É um dizer não ao individualismo e ao egoísmo que o mundo apregoa. Porque o amor é incompatível com a lógica do lucro, com a luta pela sobrevivência, com a guerra, com tudo aquilo que vivenciamos cotidianamente. Daí que, coletivamente, não penso que somos felizes. Dentre outras coisas, porque temos pouca chance de amar. Amor requer solidariedade, generosidade, entrega, respeito. Para mim, é esse amor descompromissado, autêntico, que nada exige em troca, o caminho para a felicidade, tal como Espinosa a entendia. 

Bem, termino esse texto, com as belas e precisas palavras do romancista e filósofo francês Albert Camus, que definiu tão bem o que eu tentei dizer acima: “não ser amado é falta de sorte, mas não amar é a própria infelicidade”.

Se alguém se interessar pelo tema, sugiro:

PLATÃO. O banquete. Edições 70 (há outras em português).